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É um espetáculo que se repete com precisão cirúrgica. Na quarta-feira (1º de abril de 2026), em entrevista ao Grupo Cidade (TV Cidade do Ceará), Lula disse: “O que acontece é que como tem gente mal caráter nesse país, tem gente que mesmo recebendo para não aumentar, está aumentando. Nós estamos com a Polícia Federal, todos os Procons dos estados, tudo fiscalizando, porque nós vamos ter que colocar alguém na cadeia.”
O alvo? Distribuidores, postos de gasolina e a iniciativa privada em geral. Segundo o presidente, mesmo após o governo zerar impostos federais sobre o diesel e dar orientações claras para não repassar custos, há “gente malandro”, “safada” e de “mau caráter” que estaria praticando pura bandidagem ao aumentar preços de forma abusiva e oportunista. O vilão, como sempre, é o setor privado — aquele que supostamente explora a guerra no Oriente Médio para lucrar às custas do povo.
No mesmo compasso temporal, porém, a Petrobras — estatal sob controle direto do governo federal — anunciou um reajuste médio de 55% no preço do querosene de aviação (QAV) repassado às distribuidoras. Não foi posto de esquina. Não foi distribuidora privada. Não foi “empresário ganancioso”. Foi a empresa pública, seguindo a cotação internacional do petróleo Brent.
O QAV responde por 30% a 45% dos custos operacionais das companhias aéreas. O efeito prático será inevitável: passagens mais caras, frete aéreo pressionado e impacto em turismo e logística. A estatal, em gesto de “generosidade”, propôs parcelar o aumento — apenas 18% em abril, o restante diluído nos meses seguintes. Um paliativo que não altera a essência: o reajuste veio da Petrobras, não da iniciativa privada que Lula tanto acusa.
Aqui reside a contradição que o governo finge não enxergar. Quando o preço sobe pela Petrobras, trata-se de “realidade internacional” ou “ajuste necessário”. Quando o mesmo fenômeno ocorre no elo privado da cadeia — mesmo que motivado pela mesma alta do petróleo —, vira especulação criminosa, “bandidagem” e motivo para mobilizar Polícia Federal e Procons com ameaça de prisão.
Lula quer proteger “o povo pobre” da guerra alheia. A intenção retórica soa nobre. Na prática, ele aponta o dedo para distribuidores e postos, chama-os de gente de mau caráter e fala em cadeia, enquanto a estatal que ele controla entrega uma conta pesada à aviação brasileira. Não há bandidagem maior do que essa incoerência institucional: culpar o setor privado pelo que a própria Petrobras, sob orientação do Palácio do Planalto, está fazendo.
O mercado observa. O consumidor também. A mensagem que fica é cristalina: neste governo, o preço dos combustíveis obedece a uma regra simples e conveniente — se subir pela iniciativa privada, é crime passível de prisão; se subir pela estatal, é mera necessidade técnica. Hipocrisia pura, disfarçada de defesa do povo.


