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Nova York — O presidente da Universidade Harvard, Alan M. Garber, manifestou-se publicamente decepcionado com o nível de ignorância e a polarização entre os estudantes da Ivy League — grupo formado pelas oito universidades privadas mais antigas e prestigiadas dos Estados Unidos (Brown, Columbia, Cornell, Dartmouth, Harvard, Pennsylvania, Princeton e Yale) — em relação ao conflito entre Israel e os palestinos. Essas instituições, localizadas principalmente no nordeste americano e conhecidas pela excelência acadêmica, rigor intelectual e alto grau de seletividade, são frequentemente vistas como berço de futuras lideranças globais. Segundo Garber, muitos alunos dessas universidades expressam opiniões fortes sem demonstrar curiosidade para conhecer os fatos históricos e contextuais do tema.
“As pessoas que têm opiniões fortes sobre uma questão deveriam, numa universidade, ter a curiosidade de aprender os fatos”, afirmou Garber durante um evento em Manhattan, na segunda-feira (13 de abril de 2026), conforme reportagem do jornal estudantil The Harvard Crimson.
Garber, que é judeu, descreveu como especialmente “perturbador” e “ignorante” o comportamento de parte dos alunos, que demonstram tanto desconhecimento profundo quanto relutância em engajar-se em debates abertos. “O que mais me incomoda, como presidente judeu e como alguém que se importa pessoalmente com essas questões, é o nível de ignorância entre pessoas de todos os lados desse debate. A falta de conhecimento e essa indisposição para o diálogo aberto me causam ainda mais dor”, declarou.
As observações marcam uma mudança de ênfase na gestão de Garber. Ao longo do último ano, ele dedicou-se principalmente a alertar sobre o deterioramento das condições para a livre expressão no campus. Anteriormente, o presidente havia reconhecido que Harvard “errou” ao permitir que professores manifestassem abertamente opiniões políticas em sala de aula, comprometendo a neutralidade do ensino.
Agora, Garber estende a crítica aos próprios estudantes, indicando que o problema não se limita ao corpo docente. Ele lamentou tanto a apatia de quem evita formar opinião quanto a superficialidade daqueles que adotam posições radicais sem base factual.
Contexto de tensão persistente
Harvard tem enfrentado intensas críticas desde o ataque do Hamas a Israel em 7 de outubro de 2023. A universidade foi acusada de demora e insuficiência na condenação do terrorismo e de não proteger adequadamente estudantes judeus e israelenses de um ambiente hostil no campus.
Em março de 2026, o Departamento de Justiça dos Estados Unidos ingressou com uma ação judicial contra Harvard, acusando a instituição de discriminação racial e por origem nacional contra estudantes judeus e israelenses, em violação ao Título VI da Lei de Direitos Civis de 1964. A denúncia alega que a universidade foi “deliberadamente indiferente” a um nível de hostilidade bem documentado — inclusive com denúncias feitas por membros do Congresso — e deixou de aplicar suas próprias regras contra assédio dirigido a esses alunos.
Garber tem rejeitado parte significativa das acusações, afirmando na semana passada que várias alegações da ação são “bastante infundadas” e que a universidade tem trabalhado para combater o antissemitismo.
Em 2025, Garber já havia emitido um pedido de desculpas público após relatórios internos sobre antissemitismo e islamofobia no campus. Na ocasião, ele reconheceu que o ano letivo 2023-2024 foi “decepcionante e doloroso” e prometeu reformas para não tolerar qualquer forma de preconceito. Apesar dos esforços anunciados, as críticas persistem.
Uma presidência marcada por desafios
Alan Garber assumiu a presidência de Harvard em 2024, inicialmente de forma interina, após a renúncia de Claudine Gay em meio a um escândalo de plágio e duras críticas pela forma como a instituição lidou com o antissemitismo. Em dezembro de 2025, a Harvard Corporation estendeu seu mandato por tempo indeterminado, sinalizando confiança em sua capacidade de navegar por um período de grande turbulência para o ensino superior americano.
Garber tem repetidamente defendido que o desacordo honesto e a competição entre visões diversas são “pré-requisitos para o rigor acadêmico” e centrais à missão da universidade. Sua fala em Manhattan reforça esse compromisso com o debate intelectual, ainda que expresse frustração com a realidade atual do campus.
Procurada, a assessoria de Harvard direcionou os questionamentos às declarações já publicadas por Garber, nas quais ele enfatiza a reconstrução de um ambiente de discurso robusto e saudável.


