JUNOT
O Salão Oval não assistiu, hoje, quinta-feira, ao espetáculo que parte da plateia brasileira tanto desejava — nem a humilhação teatral que a outra parte temia. Lula e Trump conversaram por três horas, almoçaram, trocaram gentilezas protocolares e saíram cada um para o seu púlpito separado. Não houve coletiva conjunta, não houve vídeo constrangedor, não houve “emboscada”. Houve, sobretudo, o que a diplomacia de alto nível costuma produzir quando os interesses são assimétricos e o calendário eleitoral, no Brasil, aperta: um encontro correto, seco e, por enquanto, vazio de anúncios.
Trump limitou-se a um post no Truth Social — o mínimo indispensável para registrar que o “presidente muito dinâmico do Brasil” esteve ali. Lula, mais loquaz na embaixada, falou em “temas que pareciam tabus” e elogiou o humor do anfitrião. Tradução: o encontro não terminou mal. Ponto. O resto é especulação de assessores e desejo de militantes.
O ceticismo, aqui, não é ideológico; é factual. Os dois países têm agendas que se tocam apenas em pontos cirúrgicos. Washington quer reduzir tarifas sobre produtos brasileiros para baixar custos internos e, de quebra, garantir acesso preferencial a minerais críticos e terras raras — matéria-prima da nova geopolítica verde e militar. Brasília quer aliviar o “tarifaço” remanescente da era anterior e, se possível, vender a narrativa de que o gigante sul-americano voltou a ser recebido na Casa Branca sem precisar ajoelhar. Ambas as partes sabem que o Pix, o crime organizado transnacional e a soberania sobre a Amazônia são temas espinhosos que ninguém quer ver transformados em manchete.
Até o momento, não existe comunicado conjunto. Não existe “acordo histórico”. Existe apenas a promessa de que negociadores dos dois lados voltarão a se sentar “nos próximos meses”. Em linguagem diplomática, isso significa: vamos ver se o Congresso americano engole e se o Itamaraty consegue não entregar o que não deve.
E, no entanto — e aqui entra o traço mais interessante do dia —, o Brasil tem, objetivamente, cartas melhores do que em 2019 ou em 2025. As reservas de nióbio, lítio e terras raras não mudaram de lugar. A pressão americana por segurança pública contra o PCC e o CV também não desapareceu. Trump, pragmático até a medula, precisa de vitórias comerciais rápidas para alimentar sua base antes das midterm de 2026. Lula, em ano eleitoral, precisa de qualquer foto que não seja de derrota.
É possível, portanto, que saia um acordo. Não o “grande acordo” que enche manchete, mas um pacote cirúrgico: redução seletiva de tarifas sobre carne, soja e minério; algum mecanismo de cooperação policial que preserve a soberania brasileira; talvez até uma linha de crédito para beneficiamento local de minerais, desde que o beneficiamento seja feito aqui e não em solo americano. Se o Planalto jogar com frieza — e o histórico de Celso Amorim e do próprio Lula sugere que sabe fazer isso —, o Brasil pode sair beneficiado. Não por generosidade trumpista, mas por pura aritmética de interesses.
O resto é teatro para consumo interno. A esquerda celebra o “diálogo restaurado”. A direita ironiza o “abraço recusado”. Ambas perdem de vista o essencial: o que importa não é se Trump sorriu ou fez cara feia, mas se, ao fim das negociações que virão, o exportador brasileiro pagará menos imposto para entrar no maior mercado do mundo e se o contribuinte brasileiro verá, em troca, alguma transferência real de tecnologia ou de segurança.
Por enquanto, o encontro foi apenas o primeiro capítulo de um roteiro que ainda não foi escrito. O ceticismo é saudável. A esperança, contida. O Brasil, como sempre, vai depender menos da retórica dos dois presidentes e mais da capacidade dos seus negociadores de não confundir cortesia com fraqueza.
Aguardemos os próximos capítulos. Eles, sim, dirão se o aperto de mão de hoje foi mera cortesia ou o início de algo que, enfim, interesse ao bolso do brasileiro.


