Eliana Pereira Ignacio
Olá, meus caros leitores…
Existe uma realidade silenciosa que acompanha muitas mulheres ao longo da vida — uma transformação tão profunda que, aos poucos, quase sem perceber, elas deixam de se enxergar como mulheres e passam a existir apenas através do cuidado com os outros.
Primeiro vêm os filhos. Depois as preocupações. As responsabilidades. As renúncias silenciosas. As noites mal dormidas. As contas. As dores escondidas. As culpas que ninguém vê. E, entre uma tarefa e outra, muitas mulheres acabam esquecendo algo essencial: antes de ser mãe… existe uma mulher. Uma mulher que também sente medo. Que também se cansa. Que também precisa ser acolhida.
Uma mulher que tinha sonhos antes da maternidade, desejos antes das responsabilidades e necessidades que, muitas vezes, foram sendo colocadas no último lugar. Hoje, quero falar não apenas das mães biológicas, mas também das avós, madrinhas, tias, cuidadoras e de todas as mulheres que, de alguma forma, dedicaram parte da própria vida ao cuidado de alguém. Porque maternar vai além do sangue.
Maternar é amar a ponto de oferecer presença, proteção e abrigo emocional. Mas há um preço emocional silencioso quando o cuidado com o outro passa a ocupar todos os espaços da própria existência. Na prática clínica, é comum encontrarmos mulheres que passaram tantos anos cuidando de todos ao redor que já não conseguem responder perguntas simples sobre si mesmas: “O que você gosta?” “O que te faz feliz?” “O que você deseja para a sua vida?” E o silêncio que surge, muitas vezes, é doloroso. Porque elas aprenderam a ser fortes para todos, mas nunca tiveram espaço para serem cuidadas também. A sociedade costuma chamar isso de amor incondicional. E, de fato, existe muito amor.
Existe entrega. Existe dedicação genuína. Mas também existe exaustão, sobrecarga emocional e uma solidão silenciosa que poucas pessoas percebem. Há mães que se sentem culpadas quando descansam.
Mulheres que acreditam que cuidar de si é egoísmo. Avós que continuam sustentando emocionalmente toda a família mesmo quando já estão cansadas da própria caminhada. E talvez uma das maiores injustiças emocionais impostas às mulheres seja a ideia de que elas precisam suportar tudo em silêncio para serem consideradas boas mães. Mas não. Uma mulher não deixa de amar porque se prioriza às vezes. Não deixa de ser mãe porque admite o próprio cansaço.
E não se torna menos importante porque decidiu olhar para si mesma com mais gentileza. Existe uma diferença muito grande entre amor e anulação.
Quando uma mulher se abandona completamente para cuidar de todos, algo dentro dela começa, lentamente, a adoecer. E muitas vezes esse adoecimento aparece em forma de ansiedade, tristeza constante, irritabilidade, esgotamento emocional ou uma sensação profunda de vazio. Porque ninguém consegue doar indefinidamente sem também precisar ser nutrido. Sob a perspectiva psicológica, cuidar de si não é luxo — é necessidade emocional.
Uma mulher emocionalmente acolhida consegue amar de maneira mais saudável, mais leve e mais consciente. E talvez hoje algumas mães precisem ouvir isto: Você não nasceu apenas para servir.
Você também merece existir além das suas funções. Merece descansar sem culpa. Merece ser ouvida. Merece reencontrar partes suas que ficaram esquecidas ao longo dos anos. Sob a perspectiva cristã, vemos que até Jesus, em meio ao cuidado constante com as pessoas, retirava-se para descansar, orar e restaurar suas forças. Isso nos ensina algo profundo: até quem ama intensamente precisa de pausas para permanecer inteiro. Talvez seja hora de muitas mulheres entenderem que cuidar de si mesmas não diminui o amor que oferecem — apenas impede que se percam completamente dentro dele.
E hoje, especialmente, eu gostaria de deixar uma palavra de ternura para todas as mulheres que, de alguma forma, foram mães na vida de alguém. Às mães presentes. Às avós incansáveis.
Às mulheres que acolheram filhos do coração. Àquelas que cuidaram mesmo em meio às próprias dores. Que vocês nunca se esqueçam: O amor que oferecem é precioso.
Mas vocês também são. Porque antes de serem mães… vocês continuam sendo mulheres dignas de cuidado, amor e acolhimento.
Feliz dia das Maes.
“Vinde a mim todos os que estais cansados e sobrecarregados, e eu vos aliviarei.” (Mateus 11:28) Até a próxima sema
Eliana Pereira Ignacio é Psicóloga, formada pela PUC – Pontifícia Universidade Católica – com ênfase em Intervenções Psicossociais e Psicoterapêuticas no Campo da Saúde e na Área Jurídica; especializada em Dependência Química pela UNIFESP Escola Paulista de Medicina em São Paulo Unidade de Pesquisa em Álcool e Drogas, entre outras qualificações. Mora em Massachusetts e dá aula na Dardah University. Para interagir com Eliana envie um e-mail para epignacio_vo@hotmail.com ou info@jornaldossportsusa.com


