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Beijing, 15 de maio de 2026: Tapete vermelho, banda militar tocando hinos, 300 jovens cantando em coro e um banquete de Estado que parecia saído de uma dinastia antiga. Donald Trump e Xi Jinping posam para as fotos como se fossem velhos compadres. Trump chama Xi de “amigo”. Xi responde com o slogan “Make America Great Again” e fala em “rejuvenescimento da nação chinesa”. O espetáculo está montado. Mas por trás das cortinas não há harmonia confucionista nem grandeza americana desinteressada. Há duas hienas adultas rondando a mesma carcaça global — e o resto do mundo, Brasil incluído, somos os despojos que sobrarem quando a briga esquentar.
Xi Jinping não precisou citar Tucídides para aplicar o Diálogo Meliano em tempo real. Disse, com a elegância milenar de quem sabe exatamente o que quer: “A independência de Taiwan e a paz no Estreito são incompatíveis como fogo e água”. Tradução sem filtro: os fortes fazem o que podem e os fracos sofrem o que devem. Taiwan é a Melos do século XXI — ilha pequena, democrática, que insiste em existir como está. A China é a Atenas de hoje: potência continental que não aceita neutralidade nem apelos morais. “Se não for manejado corretamente, teremos choques e até conflitos”, avisou Xi no encontro com Trump. Os atenienses diriam a mesma coisa aos melianos antes de sitiar a ilha, matar os homens e escravizar as mulheres e crianças. A diferença é que Taiwan ainda tem porta-aviões americanos atrás de si — por enquanto.
Aqui entra a Lei de Tucídides, ou Armadilha de Tucídides, que Xi mencionou explicitamente no summit. O conceito, tirado da Guerra do Peloponeso, é simples e brutal: quando uma potência ascendente (China) ameaça desalojar a potência estabelecida (EUA), o resultado mais provável é a guerra, a menos que haja uma acomodação rara e dolorosa. Xi levantou o risco, mas posicionou-se como o estadista sábio que quer “superar” a armadilha. Na prática, ele aplica a lógica ateniense: Taiwan não pode ser neutra, o Ocidente deve aceitar a nova hierarquia e a China fará o que puder para impor sua vontade. O summit não resolveu nada de substancial — apenas adiou o confronto. Trump saiu com fotos e anúncios de compras; Xi saiu com a linha vermelha de Taiwan reforçada. A armadilha continua armada.
A “harmonia” que Xi oferece ao mundo é a Pax Mongolica atualizada para o século XXI. No século XIII, os mongóis de Genghis Khan chegavam com a proposta generosa: “aliança” e “paz”. Aceite nosso jugo, pague tributo, entre na ordem hierárquica e terá estradas seguras, comércio fluindo e estabilidade. Recuse e conhecerá o outro lado — cidades arrasadas, populações dizimadas, crânios empilhados. A Pax Mongolica existiu de fato: a Rota da Seda explodiu em comércio. Mas foi paz construída sobre terror. Xi não usa cavalos nem arco e flecha. Usa mísseis hipersônicos, dívida da Nova Rota da Seda, vigilância digital total e coerção econômica. “Comunidade de Destino Compartilhado da Humanidade” soa poético. Na prática, significa que o destino é decidido em Beijing. Aceite o Tianxia moderno ou sinta o peso. A lógica é idêntica: submissão disfarçada de harmonia.
E aqui desmontamos a grande farsa retórica chinesa: a ideia de que o Ocidente é “jovem e imaturo”, uma criança de 270 anos brincando na sala enquanto a China, com 5.000 anos de civilização, é o adulto responsável. Bobagem histórica seletiva e propaganda de regime. A civilização ocidental não começou em 1776 com a independência americana. Ela remonta aos gregos (filosofia, democracia, o próprio realismo de Tucídides), romanos (direito, engenharia, república), tradição judaico-cristã (ética universal, dignidade do indivíduo), povos germânicos, Renascimento, Iluminismo e Revolução Industrial. É uma síntese milenar que produziu o Estado de Direito, a ciência moderna, os direitos humanos e os valores que ainda atraem milhões de chineses que fogem do regime do PCC. A China atual — a República Popular — tem apenas 77 anos. Nasceu de uma revolução comunista que destruiu templos, livros e tradições na Revolução Cultural.
Xi pega a glória das dinastias Han, Tang e Ming e cola no Partido Comunista como se fosse continuidade natural. Não é. É construção narrativa para legitimar um regime autoritário que vigia, censura e reeduca o próprio povo. Quem fala em “adultos da sala” esquece que o Ocidente ainda é o motor da inovação global, do Estado de Direito e da atração cultural — mesmo com todos os seus defeitos.
Trump, por sua vez, não finge ser filósofo. Ele é a hiena prática e barulhenta: pensa no seu governo, nas próximas eleições e em salvar a imagem de “deal-maker” que vende para a base MAGA. Levou CEOs de peso (Musk, Nvidia, Apple), anunciou compras de 200 Boeing, soja e óleo, falou em “centenas de bilhões”. Saiu do summit declarando que a relação está “muito forte”. Tradução: vitória simbólica para consumo interno. Taiwan? Mencionado de passagem, se tanto. Armas americanas continuam fluindo, mas o tom é “vocês paguem a conta”. Trump não quer guerra que destrua o mercado. Quer carne suficiente para dizer que ganhou.
Nenhum dos dois é o adulto da sala. São predadores calculistas. Xi veste o manto de sábio milenar para mascarar um regime que trata o próprio povo como cobaia de controle social. Trump veste o manto de patriota americano para justificar transações que mantêm o império no topo. A retórica de Xi não passa de aparência — bonita para plateias internas e ingênuos externos. A de Trump é puro marketing eleitoral.
No fim, o que sobra para o resto do mundo? Os despojos. O Brasil, o Sul Global, a Europa cansada — todos assistimos ao espetáculo das duas hienas disputando tecnologia, rotas comerciais, semicondutores e energia. Enquanto elas medem forças em Taiwan e no Hormuz, nós pagamos a conta: volatilidade, dependência, risco de conflito que ninguém aqui pediu.
Não há harmonia. Há zoologia de poder. E Tucídides, mais uma vez, ri de nós do século V antes de Cristo: os fortes fazem o que podem. Os fracos — e os que fingem acreditar na narrativa — sofrem o que devem.


