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Washington e Brasília, 2 de junho de 2026.
A administração Trump não perde tempo. Menos de um ano depois de ameaçar e, em parte, aplicar tarifas pesadas sobre produtos brasileiros, o Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR) acaba de propor uma tarifa adicional de 25% sobre uma ampla gama de importações do Brasil. A justificativa oficial, divulgada nesta segunda-feira (1º), é a conclusão de uma investigação sob a Seção 301 da Lei de Comércio de 1974: práticas brasileiras consideradas “injustas, onerosas e restritivas” ao comércio americano.
Jamieson Greer, o representante comercial, foi direto: as medidas envolvem comércio digital, serviços de pagamento eletrônico (com menção explícita ao Pix como favorecimento ao “campeão nacional”), tarifas preferenciais a México e Índia, proteção insuficiente à propriedade intelectual, acesso ao mercado de etanol e até o persistente desmatamento ilegal. Não é uma lista aleatória. É um pacote que toca em pontos sensíveis da economia brasileira e, ao mesmo tempo, em temas caros ao eleitorado trumpista.
A proposta vem com isenções estratégicas: carne bovina, café, terras raras, peças de aeronaves (Embraer), petróleo e alguns produtos farmacêuticos e químicos. Trump sabe onde dói menos para os exportadores americanos e onde o lobby brasileiro é mais forte. As novas tarifas substituem, em parte, aquelas de até 50% impostas no ano passado — muitas das quais foram derrubadas pela Suprema Corte americana em fevereiro. O recado é claro: o jogo recomeça, agora com base jurídica mais sólida.
Contexto de poder e ressentimento

Quem acompanha a política americana não se surpreende. Trump usa a Seção 301 como ferramenta preferida desde o primeiro mandato — contra a China, contra a Europa, e agora, de forma mais cirúrgica, contra o Brasil. A investigação começou em julho de 2025, logo após Trump acusar o governo Lula de perseguir Jair Bolsonaro. O elemento político está presente, mas não explica tudo. Há queixas antigas de empresas americanas sobre barreiras regulatórias, demora na concessão de patentes, ordens judiciais contra plataformas (X, Meta, Google) e a ascensão do Pix, que de fato deslocou players como Visa e Mastercard no mercado brasileiro.
Do lado brasileiro, o tom até agora é de irritação contida. O Itamaraty e o Ministério da Economia sabem que retaliar com tarifas equivalentes pode escalar o conflito e prejudicar ainda mais as exportações — que, vale lembrar, dependem muito do mercado americano para commodities e manufaturados. Diálogo houve: Lula e Trump se encontraram, conversaram. Mas, segundo Greer, as diferenças “substanciais” persistem.
O que vem pela frente
Uma audiência pública está marcada para 6 de julho, com comentários até 1º. As medidas corretivas devem entrar em vigor até 15 de julho. O prazo é apertado, o que indica que Washington quer pressão rápida. Para o Brasil, o impacto pode ser significativo em setores como autopeças, máquinas, produtos químicos e serviços digitais. Para a economia global, é mais um capítulo da fragmentação comercial que Trump acelera: bilateralismo duro, “América Primeiro” sem concessões ideológicas.
Trump não está isolando o Brasil. Ele está reorganizando as cadeias de suprimento conforme sua visão: punir quem não joga pelas regras americanas e recompensar quem se alinha. O Brasil, com sua diplomacia Sul-Sul, parceria com China e posições ambientais que irritam parte da base republicana, paga o preço.
Resta saber se Brasília optará pela confrontação simbólica ou pela negociação dura e pragmática. No mundo de Trump 2.0, o segundo caminho costuma render mais. Mas exige realismo — algo que nem sempre abundou nos últimos anos da política externa brasileira.


