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Belo Horizonte — O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), pré-candidato à Presidência, e o ex-governador Romeu Zema (Novo-MG), também pré-candidato, protagonizaram nesta terça-feira (2) um momento simbólico na Megaleite, a maior feira de laticínios da América Latina. Ao lado de outras lideranças do centro-direita, os dois ergueram copos de leite e brindaram, em clara homenagem ao setor leiteiro mineiro.
O gesto, registrado em vídeos e fotos que circularam rapidamente nas redes sociais, tinha intenção explícita de valorizar o agronegócio. “Vamos tirar o PT do governo, vamos estar juntos”, declarou Flávio a Zema durante o encontro. O evento marcou a primeira aparição pública de reaproximação entre os dois após semanas de atritos.
No entanto, o brinde provocou imediata controvérsia. Críticos associaram o ato ao uso do leite como símbolo por grupos supremacistas brancos, especialmente da alt-right internacional. A polêmica não está no ato de beber leite em si — comum em qualquer evento do setor —, mas na carga simbólica que o produto adquiriu nos últimos anos.
A origem científica e a distorção ideológica
A controvérsia tem base em um fato biológico real: a distribuição desigual da persistência da lactase (capacidade de digerir lactose na vida adulta) entre populações humanas.
Enquanto cerca de 65% a 70% da população mundial é intolerante à lactose após a infância, a tolerância é significativamente mais alta em descendentes de populações europeias do norte — chegando a 80-95% entre escandinavos, alemães do norte e britânicos. A mutação genética responsável surgiu há cerca de 7 a 10 mil anos e se espalhou em regiões com forte tradição de pecuária leiteira. Outras mutações independentes ocorreram em povos pastores da África Oriental.
Grupos da extrema direita, principalmente a partir de 2016 nos Estados Unidos, transformaram esse dado antropológico em narrativa pseudocientífica de “pureza racial”. Beber leite passou a ser usado como dog whistle (sinal subliminar) para indicar superioridade genética branca. O meme ganhou força com figuras como Richard Spencer e em fóruns como 4chan, que divulgam mapas mundiais de intolerância à lactose para “provar” diferenças raciais. No Brasil, o tema explodiu em 2020, quando Jair Bolsonaro bebeu leite durante uma live.
Especialistas em extremismo de direita apontam que o leite virou ferramenta de provocação: um gesto aparentemente inocente que carrega mensagem para iniciados. Para os críticos, o brinde de Flávio e Zema na Megaleite seria mais um exemplo dessa estratégia. Para os defensores, trata-se de mais uma tentativa de criminalizar um produto essencial da economia brasileira e da cultura rural, transformando um evento setorial em caso de “racismo”.
Reações e contexto político
Nas redes, o episódio dividiu opiniões. Perfis da extrema esquerda e militantes antirracistas classificaram o brinde como “provocação deliberada” e “apito para a base bolsonarista radical”. Já apoiadores dos pré-candidatos ironizaram: “Agora não pode nem beber leite?”. Organizadores da Megaleite defenderam que o gesto foi puramente protocolar e tradicional no evento, destinado a celebrar os produtores de leite.
O episódio ocorre em ano pré-eleitoral acirrado. Flávio Bolsonaro tem intensificado agenda em Minas Gerais, estado estratégico para 2026, enquanto Zema busca se reposicionar como nome viável da direita liberal. O brinde, embora polêmico, serviu para projetar unidade do campo conservador e proximidade com o agronegócio — setor que responde por grande parte do PIB brasileiro e que historicamente apoia pautas de direita.
A polêmica sobre o leite ilustra como, no ambiente hiperpolarizado atual, até atos rotineiros são carregados de significado ideológico. De um lado, a instrumentalização de um dado genético para fins racistas. De outro, a tendência de enxergar supremacismo em qualquer gesto que evoque tradição rural ou europeia.
A Megaleite segue até o final da semana com debates técnicos sobre produtividade, sanidade animal e mercado de laticínios — temas concretos que, por ora, ficaram em segundo plano diante da batalha simbólica travada nas redes.


