Edel Holz
Ela estava com as amigas nas Escarpas do Lago, dormindo no scortinho vermelho da Patty, com Dri e Carla pra completar a festa. O sol incomodava os olhos delas pela manhã e foram aproveitar o dia naquele lugar chic, à beira da represa de Furnas.
Comeram qualquer coisa pra enganarem o estômago e resolveram voltar pra casa. Na saída das Escarpas, Lizeth teve uma caganeira transcedental e Patty sugeriu que ela cagasse no mato mesmo. Ela recusou e insistiu para que a amiga voltasse para o Clube do balneário para que ela pudesse usar o banheiro.
As amigas a esperaram numa mesa ao lado da piscina,tomando guaraná e quando Liseth voltou do banheiro, quem estava lá? Aquele ator da novela das 7, que bombava nas revistas Amiga, contigo e etc e tal. Pois ele e Lizeth conversaram muito, falaram de tudo : cinema, tv e teatro! Afinal Lizeth pretendia ser atriz.
Ele lhe disse: Uau… seis meses aqui e é a primeira vez que consigo conversar com alguém aqui nessa cidade! Marcaram de se encontrarem à noite.
Ele passou em sua casa e a levou pro restaurante mais gostoso da cidade de Passos nessa época: A Varanda. Ele tinha um passat preto e ninguém entendia como um ator famoso pudesse ter um passat preto. Ele cantou pra ela “ Ói o trem” do Raul Seixas, abriu a porta do carro pra ela entrar, pra ela sair e a levou pro Porto do Glória quando a balsa ainda resplandecia sobre o Rio Grande. Eles se beijaram..Beijo à veludo cotelê segundo ela. Beijo macio, gostoso, de boca carnuda.
Liseth se apaixonou por ele. Pelo homem. Não pelo artista. Ele morava no Rio de Janeiro, cidade maravilhosa. Em São Conrado.
Lizeth foi morar lá pra ser atriz. Ele a convidou pra ir no seu apê. Na sala, tinha uma vitrola última greração, com tampa transparente grudada na parede e o disco virava sozinho dentro dela! Lizeth enlouqueceu e perguntou onde ele havia comprado aquele eletrônico estribado. Ele disse: -Trouxe dos EUA. Ela pensou:- Um dia vou morar lá! Ela falou que amava o “Love Theme” do Blade Runner e ele colocou na repetição pra cena de amor ter trilha sonora. E era assim que ela sentia : dentro de um filme ou novela, com aquele ator “pão” de olhos verdes que fazia muita gente suspirar. Ah… ele perguntou qual a puzza que ela mais gostava.
Como ela não disse nada, ele trouxe um pedaço de cada sabor para deixá-la feliz. Seu quarto tinha um abajur lilás de anel de saturno e a roupa de cama também lilás deixava em Lizeth a dúvida do ator ser gay. O povo falava que era e ela não acreditava nisso! Ele descobriu que Lizeth era virgem, porque foi um desastre na primeira vez. Ele pediu que ela beijasse o pingolim e ela o encheu de bicotas.
Sua pulseira de borboleta raspou o dito cujo e pra melhorar ele disse: um dia você vai poder dizer pro seu lho que seu primeiro homem foi… e disse seu nome artístico. Que babaca! Lizeth pediu pra ir embora, Ele a levou. Os dois em silêncio. Se São Conrado à Copacabana. Nunca mais se viram. Ele continuou famoso. Lizeth virou dona de casa e professora de teatro nos Estados Unidos. O dito cujo se casou duas vezes e teve uma lha depois dos sessenta anos.
Lizeth nem se lembra que ele existiu na vida dela. Mas eu adoro essa história e resolvi que ela virasse crônica.Em respeito à Lizeth, mudei os nomes das personagens da história. Mas se eu pudesse botaria a boca no trombone… Ah se botaria!
SOBRE A COLUNISTA: Edel Holz é a mais premiada e consagrada atriz, roteirista, diretora e produtora teatral brasileira nos Estados Unidos. Inquieta e de mente profícua, Edel tem sempre um projeto cultural engatilhado para oferecer para a comunidade brasileira. Depois de anos de ausência, Edel volta a abrilhantar as páginas de um jornal. Damos as boas vinda à poderosa e de mente efervescente Edel.


