Por: Eliana Pereira Ignacio
Olá, meus caros leitores… Existe uma pergunta que, ao longo dos anos de prática clínica, aprendi a fazer silenciosamente sempre que um paciente inicia sua história. Em que momento essa pessoa deixou de acreditar que ainda havia tempo? Curiosamente, essa percepção não está relacionada apenas à idade. Ela pode surgir aos trinta, aos cinquenta, aos setenta anos ou em qualquer fase da vida em que uma decepção, uma perda ou uma mudança importante faça alguém acreditar que o melhor da sua história já ficou para trás.
Essa crença costuma aparecer em frases aparentemente simples: “Se eu tivesse começado antes…” “Agora não adianta mais.” “Minha oportunidade passou.” “Na minha idade não faz mais sentido.” À primeira vista, parecem apenas comentários sobre o tempo. Mas, na Psicologia Clínica, aprendemos que essas frases revelam muito mais do que isso.
Elas expressam a maneira como a pessoa passou a interpretar a própria vida. Nem sempre é o tempo que limita as possibilidades. Muitas vezes, são as conclusões que construímos sobre ele. Nossa mente organiza as experiências por meio de significados. Quando repetimos constantemente que “já é tarde demais”, essa ideia deixa de ser apenas um pensamento passageiro e passa a influenciar nossas emoções, nossas decisões e nossos comportamentos. Aos poucos, deixamos de tentar, evitamos novos desafios e nos afastamos de oportunidades que ainda estão diante de nós.
Esse processo é conhecido na Psicologia Cognitiva como o fortalecimento de crenças limitantes. Não significa que as dificuldades sejam imaginárias. Elas existem. O problema surge quando passamos a enxergar o futuro exclusivamente através das lentes das perdas vividas no passado. Ao longo da vida, todos nós acumulamos experiências. Algumas fortalecem nossa confiança.
Outras deixam marcas profundas. Entretanto, amadurecer não significa apenas acumular anos; significa desenvolver recursos para interpretar essas experiências de maneira mais saudável e construtiva. Como afirmou Carl Rogers: “A curiosa paradoxalidade é que, quando me aceito como sou, então posso mudar.” Essa talvez seja uma das maiores lições da Psicologia Clínica.
A mudança não nasce da autocrítica constante, mas da coragem de olhar para si mesmo com honestidade, acolhimento e disposição para crescer. Aceitar a própria história não significa conformar-se com ela. Significa reconhecer que o passado faz parte da nossa trajetória, mas não precisa determinar o nosso futuro.
Outro aspecto importante é que o desenvolvimento humano continua ao longo de toda a vida. Hoje sabemos, por meio de inúmeras pesquisas, que nosso cérebro mantém capacidade de adaptação e aprendizagem mesmo na vida adulta e na velhice.
Essa característica, conhecida como neuroplasticidade, demonstra que continuamos capazes de desenvolver novas habilidades, rever padrões de pensamento, fortalecer competências emocionais e construir novos significados para aquilo que vivemos. Talvez por isso alguns dos momentos mais bonitos que presencio no consultório não aconteçam no início da vida, mas justamente quando alguém decide, depois de muitos anos, cuidar de si pela primeira vez.
É emocionante acompanhar pessoas que aprendem a estabelecer limites saudáveis depois de uma vida inteira tentando agradar a todos. Pais e filhos que encontram caminhos para reconstruir vínculos. Homens e mulheres que descobrem novos projetos quando imaginavam que seus melhores anos haviam terminado. Pessoas que finalmente compreendem que pedir ajuda não é sinal de fraqueza, mas um importante passo em direção ao cuidado consigo mesmas.
Nenhuma dessas mudanças acontece porque o tempo voltou. Elas acontecem porque a maneira de olhar para a própria história mudou.
O psiquiatra Viktor Frankl, sobrevivente dos campos de concentração nazistas, escreveu uma frase que permanece extremamente atual: “Quando já não podemos mudar uma situação, somos desafiados a mudar a nós mesmos.” Essa reflexão nos lembra que nem sempre teremos controle sobre os acontecimentos da vida. No entanto, sempre existirá algum espaço para escolhermos como responder a eles.
“Nunca é o tempo que encerra nossas possibilidades. Muitas vezes, são as crenças que construímos sobre ele.”
Até a próxima semana
Eliana Pereira Ignacio é Psicóloga, formada pela PUC – Pontifícia Universidade Católica – com ênfase em Intervenções Psicossociais e Psicoterapêuticas no Campo da Saúde e na Área Jurídica; especializada em Dependência Química pela UNIFESP Escola Paulista de Medicina em São Paulo Unidade de Pesquisa em Álcool e Drogas, entre outras qualificações. Mora em Massachusetts e dá aula na Dardah University. Para interagir com Eliana envie um e-mail para epignacio_vo@hotmail.com ou info@jornaldossportsusa.com


