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Os americanos estão menos orgulhosos de seu país do que há uma década. É o que mostram duas pesquisas recentes — da AP-NORC e da Gallup — que registram um declínio consistente no sentimento patriótico, especialmente em relação ao funcionamento da democracia, às Forças Armadas e à própria história nacional.
Segundo o levantamento realizado em abril, o orgulho na forma como a democracia funciona nos Estados Unidos caiu de 42% em 2017 para apenas 28% atualmente. O orgulho nas Forças Armadas recuou 19 pontos percentuais no mesmo período, enquanto o orgulho pela história do país diminuiu 14 pontos. A Gallup vai além: apenas 53% dos adultos se declaram “extremamente” ou “muito” orgulhosos de serem americanos — o menor índice desde 2001.
O período analisado é marcado por turbulências: o primeiro mandato de Donald Trump, a pandemia de Covid-19, a inflação descontrolada, a volta de Trump ao poder e, mais recentemente, o envolvimento militar no Estreito de Ormuz. A queda é puxada principalmente pelos democratas e, em menor grau, por independentes. Entre republicanos, o orgulho permanece elevado, especialmente em relação às Forças Armadas.
Divisão partidária e identitária
A polarização transforma o patriotismo em questão de tribo. Enquanto 70% dos republicanos se dizem “extremamente” orgulhosos de serem americanos, o índice cai para 14% entre democratas e 28% entre independentes. Ser americano ainda é importante para a identidade pessoal da maioria, mas esse sentimento é muito mais forte entre republicanos e pessoas acima de 60 anos. Entre jovens de menos de 30 anos, apenas um terço considera a nacionalidade algo “extremamente” ou “muito” importante.
Para muitos negros americanos, a identidade racial ou étnica pesa mais que a nacional. Pesquisa AP-NORC mostra que 73% deles consideram a raça ou etnia central para sua autoimagem — proporção bem superior à dos brancos. O mesmo ocorre, em menor grau, entre hispânicos.
Comparação com o patriotismo brasileiro
O contraste com o Brasil é revelador. Enquanto nos Estados Unidos o orgulho nacional se fragmenta por linhas partidárias e identitárias, no Brasil o sentimento patriótico costuma ser mais difuso e cultural, ligado a símbolos como a Seleção, o Carnaval, a natureza e o “jeitinho brasileiro”. Pesquisas como as do Datafolha e Ipec frequentemente mostram índices elevados de orgulho de ser brasileiro (acima de 80-90% em muitos levantamentos), mesmo em períodos de grave crise política ou econômica.
No Brasil, o patriotismo resiste melhor à polarização porque é menos atrelado ao governo do momento e mais a uma identidade afetiva e simbólica. Nos EUA, o patriotismo tornou-se refém da guerra cultural: republicanos exibem bandeiras e orgulho incondicional; democratas e jovens tendem a ser mais críticos em relação ao passado escravocrata, ao racismo estrutural e ao funcionamento atual da democracia.
O que antes era um sentimento amplamente compartilhado nos EUA tornou-se condicional, partidário e, em muitos casos, melancólico. O patriotismo americano, ao que parece, não desapareceu — mas se tornou mais seletivo e frágil diante das divisões internas. No Brasil, apesar de todos os defeitos, o amor ao país ainda funciona como um aglutinador cultural mais resiliente.


