Por: Eliana Pereira Ignacio
Olá, meus caros leitores!
Hoje, em nossa coluna SOS VIDA, quero convidá-los a refletir comigo sobre uma experiência que, em algum momento, alcança todos nós: a espera. Esperamos um diagnóstico, uma oportunidade profissional, uma reconciliação, a solução de um problema financeiro, a resposta de alguém, o resultado de um processo, uma mudança familiar ou simplesmente que uma fase difícil termine.
O problema não está necessariamente em esperar. Esperar faz parte da experiência humana. A questão começa quando, sem percebermos, transformamos a espera em um lugar permanente de existência. A Psicologia Clínica tem muito a nos ensinar sobre esse processo. Por isso, devido à importância e à amplitude do tema, decidi dividir nossa reflexão em duas partes.
Hoje, vamos compreender principalmente o que acontece emocionalmente quando a incerteza começa a dominar nossos pensamentos e comportamentos. Na próxima semana, conversaremos sobre como recuperar o movimento da vida enquanto determinadas respostas ainda não chegaram. Então, antes de continuarmos, deixo uma pergunta: como você tem vivido enquanto espera? Quando a mente não suporta o “ainda não sei” Na Psicologia Clínica, a dificuldade em permanecer diante daquilo que ainda não pode ser previsto ou controlado é estudada, entre outros conceitos, como intolerância à incerteza. Ela não significa simplesmente não gostar de dúvidas. Refere-se à tendência de experimentar a ausência de certeza como algo ameaçador ou emocionalmente difícil de suportar.
Pesquisadores como Michel Dugas e colaboradores demonstraram a importância da intolerância à incerteza na compreensão da preocupação excessiva, particularmente no Transtorno de Ansiedade Generalizada (Dugas et al., 1998). Pesquisas posteriores ampliaram essa compreensão, mostrando sua relação com diferentes manifestações de ansiedade e sofrimento emocional. Diante da incerteza, nossa mente tenta fazer aquilo para que foi preparada: antecipar, prever e proteger. Então pensamos. Repensamos. Criamos cenários. Repassamos conversas. Procuramos sinais. Tentamos descobrir antecipadamente aquilo que ainda não pode ser conhecido. Existe, porém, uma diferença importante entre pensar sobre um problema e ficar aprisionado ao problema pelo pensamento.
A preocupação pode produzir uma sensação momentânea de controle: enquanto estou pensando, parece que estou fazendo alguma coisa. Mas nem todo pensamento produz solução. Algumas vezes estamos apenas percorrendo mentalmente, repetidas vezes, um território para o qual ainda não existe resposta. O risco de colocar a vida em suspensão.
Talvez uma das consequências mais silenciosas da espera prolongada seja o adiamento da própria vida. Começamos a pensar: “Quando isso se resolver, vou ficar bem.” “Quando eu souber o que acontecerá, conseguirei descansar.” “Quando receber aquela resposta, retomarei meus projetos.” A pessoa continua trabalhando, conversando e cumprindo suas obrigações, mas emocionalmente permanece estacionada. Surge uma espécie de contrato interno: “Eu voltarei a viver quando isso estiver resolvido.” Mas a vida não assina esse contrato. Enquanto esperamos, os dias continuam passando.
Os relacionamentos continuam precisando de cuidado. Nosso corpo continua necessitando de descanso. Existem pessoas para amar, responsabilidades para cumprir, possibilidades para explorar e uma vida acontecendo agora. É exatamente aqui que precisamos ter cuidado para não transformar Psicologia em discurso motivacional. O trabalho clínico não consiste em dizer: “Pare de pensar nisso”, “Pense positivo” ou “Tudo dará certo”. Não sabemos se tudo acontecerá da maneira imaginada. Existem perdas reais. Existem respostas que demoram. Existem expectativas que não se concretizam. Existem situações profundamente difíceis e acontecimentos sobre os quais possuímos pouco ou nenhum controle.
O trabalho psicológico é outro: ajudar a pessoa a desenvolver recursos emocionais para atravessar aquilo que ainda não consegue resolver sem abandonar a si mesma durante o caminho. Talvez esperar seja inevitável. Parar de viver enquanto esperamos, não. “Tudo tem o seu tempo determinado, e há tempo para todo propósito debaixo do céu.”
Eclesiastes 3:1 Até a próxima semana!
Eliana Pereira Ignacio é Psicóloga, formada pela PUC – Pontifícia Universidade Católica – com ênfase em Intervenções Psicossociais e Psicoterapêuticas no Campo da Saúde e na Área Jurídica; especializada em Dependência Química pela UNIFESP Escola Paulista de Medicina em São Paulo Unidade de Pesquisa em Álcool e Drogas, entre outras qualificações. Mora em Massachusetts e dá aula na Dardah University. Para interagir com Eliana envie um e-mail para epignacio_vo@hotmail.com ou info@jornaldossportsusa.com


