Edel Holz
Velavam o corpo de Alcides naquele sobrado antigo da cidade de Machado. As tábuas corridas já estavam podres. A casa nunca havia visto tanta gente de uma só vez. Alcides trabalhou muitos anos com os pobres, distribuindo cestas básicas todos os meses. Era uma pessoa muito querida.
Gente vinda de toda parte trazia uma lágrima num pacote de lembranças daquela vida que alegrou tantos corações… A mãe de Alcides chorava daqui a mulher de lá, o pai de cá, os filhos acolá… Os humildes ajudados por ele choravam em coro. Choradeira vai, choradeira vem…
Quando já não havia mais espaço na sala e muita gente começava a ficar do lado de fora, o chão começou a romper e, num instante, caixão, defunto, convidados e família caíram direto no porão onde Alcides criava porcos.
Um homem gritou: “— Isso é um aviso! Alcides quer que cuidem bem dos porquinhos dele.” há quem diga que Alcides sorriu, concordando com o amigo.
Seu corpo se separou do caixão no momento da queda e ficou rodeado de porcos, como se os bichinhos estivessem se despedindo de seu dono. E quem teria coragem de colocar o defunto de volta ao caixão?
O cheiro do porão estava ficando insuportável, então a mulher de Alcides pediu aos filhos que a ajudassem a colocar o marido em seu devido lugar. Decidiu que era hora de enterrá-lo, e todos seguiram o corpo até o cemitério.
Os porquinhos foram atrás. Há os que dizem que viram lágrimas em seus olhos. Mas, peraí… Porco chora?
SOBRE A COLUNISTA: Edel Holz é a mais premiada e consagrada atriz, roteirista, diretora e produtora teatral brasileira nos Estados Unidos. Inquieta e de mente profícua, Edel tem sempre um projeto cultural engatilhado para oferecer para a comunidade brasileira. Depois de anos de ausência, Edel volta a abrilhantar as páginas de um jornal. Damos as boas vinda à poderosa e de mente efervescente Edel.


