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Boston, 07 de Julho de 2026 – Mark Zuckerberg mais uma vez demonstra que, para ele, ética é um conceito flexível, subordinado aos interesses comerciais da Meta. A revelação de um programa secreto chamado “Cannes”, noticiado pela Wired, expõe uma operação que ultrapassa os limites do razoável mesmo para os padrões duros da guerra corporativa no setor de inteligência artificial.
Em vez de submeter seus próprios modelos (o Llama) a testes rigorosos e transparentes de segurança, a Meta contratou centenas de trabalhadores terceirizados para se passarem por adolescentes e bombardear os sistemas de concorrentes — ChatGPT, Gemini e Character.AI — com prompts extremamente perturbadores: suicídio, automutilação, canibalismo, distúrbios alimentares, abuso sexual e violência. Milhares de mensagens foram enviadas a partir de contas falsas de menores, com o objetivo declarado de “testar guardrails”.
O que torna a ação particularmente reveladora da falta de ética não é apenas a natureza sórdida do conteúdo, mas a escolha deliberada de alvo. Zuckerberg não mandou seus contratados pressionarem o próprio modelo da Meta até o limite. Preferiu usar mão de obra barata para enfraquecer os concorrentes, coletar dados sobre suas vulnerabilidades e, possivelmente, ganhar vantagem competitiva. Isso não é “segurança de IA”. É sabotagem terceirizada com disfarce de preocupação ética.
O que chama ainda mais atenção é a hipocrisia estrutural. Enquanto a Meta terceirizava o trabalho sujo para contratados que relatavam trauma psicológico, a empresa continua a se apresentar ao público como defensora de uma internet “segura e conectada”. O mesmo Zuckerberg que fala em responsabilidade agora acumula mais um caso em que o lucro e o poder parecem valer mais do que o respeito à dignidade humana — tanto dos contratados quanto dos usuários finais.
Há ainda outro aspecto inquietante, de natureza técnica e ética ao mesmo tempo. Como já se sabe, os grandes modelos de linguagem absorvem padrões da internet. Quando um tema se torna recorrente — seja por uso orgânico ou coordenado —, ele tende a ser internalizado como “normal” pelo sistema. A popularidade estatística erode filtros. É exatamente por isso que empresas sérias investem em alinhamento humano constante e regras duras, independentemente da frequência com que certos assuntos aparecem.
A Meta, no entanto, parece preferir explorar essa fraqueza alheia em vez de corrigi-la primeiro em casa. Testar os outros com o pior da humanidade, em segredo, sem transparência e sem assumir os mesmos riscos nos próprios produtos, revela uma visão de mundo onde o adversário comercial é tratado como inimigo a ser exposto, enquanto a própria casa fica protegida.
Zuckerberg construiu um império sobre dados e atenção. Cada novo escândalo sugere que, para ele, a linha entre inovação e manipulação é traçada conforme a conveniência do momento. O episódio “Cannes” não é um erro pontual. É mais um sintoma de uma cultura corporativa na qual a ética é um discurso para regulators e acionistas, enquanto a prática segue outra lógica: vencer a qualquer custo, mesmo que o custo seja pago por terceiros e pela confiança pública.
O setor de IA já acumula poder demais para continuar tolerando esse tipo de comportamento. Testes de segurança são necessários. O que não é aceitável é transformá-los em arma contra o concorrente enquanto se protege o próprio quintal. Zuckerberg, mais uma vez, mostrou que entende bem o jogo. Resta saber até quando a sociedade vai continuar aceitando as regras que ele impõe.


