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CLEVELAND — Um sistema de câmeras de leitura automática de placas mantido pela Prefeitura de Cleveland foi consultado quase 2.000 vezes ao longo de 2025 por autoridades envolvidas na aplicação de leis de imigração, incluindo buscas diretas vinculadas ao ICE, revelando uma brecha sistemática entre o discurso oficial de privacidade e o uso real da tecnologia.
Os registros de auditoria, obtidos após insistentes pedidos de transparência, mostram que as consultas ocorreram de forma recorrente até novembro, quando a cidade finalmente ativou um filtro da empresa Flock Safety para bloquear buscas explicitamente ligadas à imigração. A revelação contraria as garantias repetidas da administração do prefeito Justin Bibb de que o sistema não seria utilizado para fins migratórios.
O padrão não se restringe a Cleveland. Cidades vizinhas como Shaker Heights, Cleveland Heights e Dayton registraram uso semelhante, o que indica que redes de vigilância urbana estão sendo progressivamente incorporadas à estratégia federal de enforcement imigratório — especialmente após a intensificação das operações de deportação no segundo mandato de Donald Trump.
Embora a prefeitura afirme ter ativado salvaguardas em novembro e negue conhecimento de prisões decorrentes do sistema, os documentos expõem limitações evidentes: muitas buscas vêm de agências externas ou usam termos genéricos, o que dificulta o controle efetivo. Críticos veem nisso uma “porta dos fundos” para contornar restrições locais.
O grupo Flock No, que pressiona pela interrupção do contrato, alerta que a tecnologia transforma municípios em facilitadores involuntários — ou, em alguns casos, cúmplices — de uma política nacional de deportações em massa. “Não é surpresa, mas é preocupante ter a confirmação”, disse Bryn Adams, porta-voz da organização.
Especialistas em privacidade e direitos civis veem o caso como um alerta mais amplo: sistemas de vigilância financiados com recursos públicos, inicialmente vendidos como ferramentas de combate ao crime local, acabam ampliando o alcance de agências federais sem debate transparente ou consentimento da população.
A discussão ganha urgência no Conselho Municipal, que deve votar novamente a prorrogação do contrato com a Flock Safety. A polêmica coloca em xeque o equilíbrio entre segurança pública e proteção de liberdades individuais — um dilema que, cada vez mais, ultrapassa os limites de Cleveland.


