JUNOT
De acordo com investigação da Injustice Watch publicada pelo The Intercept em 25 de agosto de 2026, o policial Brad Herzog parou Daniel Torrez Perez por excesso de velocidade numa rodovia rural perto de Springfield, Illinois, em abril de 2025. Ao consultar o nome no sistema, acionou um alerta federal. Minutos depois, um agente do FBI ligou e sugeriu prender o homem com base num mandado estadual pendente por DUI (dirigir sob influência). Herzog aceitou. Torrez passou a noite na cadeia e, no dia seguinte, foi entregue ao ICE. Acabou deportado para a Guatemala.
A cena, captada por câmeras corporais obtidas via Lei de Liberdade de Informação, ilustra um padrão preocupante. Nos primeiros 15 meses do segundo mandato de Donald Trump, autoridades de pelo menos 75 agências locais em mais de um terço dos condados de Illinois compartilharam informações com agentes federais de imigração, em aparente violação da Lei TRUST de 2017. O resultado: pelo menos 150 pessoas canalizadas para o sistema de deportação num estado que se apresentava como “escudo” protetor. A reportagem se baseia em mais de 30 horas de imagens, 394 pedidos de registros e dezenas de entrevistas com afetados e parentes.
A investigação revela colaborações por e-mail, oficiais de força-tarefa com crachá local e endereço do ICE, e o compartilhamento automático de impressões digitais. Em Tinley Park, policiais enviaram endereços, empregadores e fotos de passaporte a agentes federais. Em Hoffman Estates, um detetive pediu verificação de status migratório de uma vítima de assalto. Prisões honraram “detainers” do ICE sob orientação dos Marshals, apesar da proibição estadual.
Para imigrantes latino-americanos, o episódio carrega um aviso cultural profundo. No Brasil, beber em público, carregar uma lata de cerveja ou long neck é hábito comum e socialmente aceito em grande parte das cidades. Dirigir depois de beber é ilegal pela Lei Seca, mas a percepção de risco e a fiscalização não têm o mesmo peso simbólico nem as mesmas consequências migratórias. Nos Estados Unidos, o DUI é tratado como ameaça grave à segurança pública; qualquer parada de trânsito pode acionar bancos de dados federais e, para quem tem status migratório irregular, transformar uma infração local em deportação.
A diferença não é apenas legal: é de mentalidade. O que na América Latina muitas vezes passa como descuido cotidiano, na cultura americana pode ser lido como desrespeito a regras que a sociedade considera inegociáveis. Mesmo sob leis de proteção como a TRUST Act, essa lacuna cultural continua a ter preço alto para quem subestima o rigor do sistema norte-americano.


