JSNEWS
A Immigration and Customs Enforcement (ICE) passou a operar uma linha telefônica para receber denúncias de fraude na emissão de carteiras de motorista comercial (CDL), a habilitação exigida nos Estados Unidos para conduzir caminhões pesados. O número divulgado pela Homeland Security Investigations é 866-347-2423.
A medida se insere numa ofensiva conjunta do Departamento de Segurança Interna (DHS) e do Departamento de Transportes (DOT) contra o que o governo federal descreve como falhas na concessão de CDLs — em especial as chamadas non-domiciled CDLs, emitidas a estrangeiros sem domicílio permanente no Estado — e contra escolas de formação acusadas de fraudar exames, atestados médicos e requisitos de inglês. O DOT afirma ter retirado de circulação dezenas de milhares de condutores por insuficiência linguística, cancelado milhares de licenças consideradas irregulares e excluído milhares de escolas do registro da Federal Motor Carrier Safety Administration (FMCSA). Cerca de 75 escolas de formação inicial estão sob suspeita de irregularidade.
O DHS relaciona a linha de denúncia a acidentes graves em que o condutor do caminhão era estrangeiro e portava CDL estadual.
Na Pensilvânia, em julho de 2026, o policial rodoviário Michael Pahira Jr., de 44 anos, morreu ao ser atingido durante fiscalização na I-81. O motorista do outro carreta, Michael Bon, 33 anos, haitiano residente em Brockton (Massachusetts), responde a homicídio culposo no trânsito e delitos correlatos. O DHS afirma que a liberdade condicional (parole) federal de Bon foi encerrada em junho de 2025 e que ele permaneceu no país; Massachusetts teria emitido CDL não domiciliada em março de 2025 e renovado o documento em fevereiro de 2026. A defesa apresentou registros segundo os quais Bon tinha autorização de trabalho até 2027 e pedido de asilo pendente. O Departamento de Veículos de Massachusetts sustentou que, na data do pedido original, as regras federais então vigentes permitiam a emissão. A ICE registrou detainer migratório. O processo criminal segue.
Em fevereiro de 2026, na Indiana, Bekzhan Beishekeev, 30 anos, nacional do Quirguistão e com CDL da Pensilvânia, teria deixado de frear atrás de outro caminhão, invadido a contramão e atingido uma van. Morreram quatro homens da comunidade amish de Bryant. Segundo o DHS, Beishekeev entrou pelos EUA pelo aplicativo CBP One e foi liberado em parole. A polícia estadual o deteve; a ICE assumiu a custódia migratória.
Em Oregon, em novembro de 2025, Rajinder Kumar, indiano com CDL da Califórnia, teria “caniveteado” a carreta na U.S. 20. Um Subaru colidiu com o bloqueio; morreram William Carter, 25, e Jennifer Lower, 24, casados havia 16 dias. O DHS diz que Kumar cruzou perto de Lukeville (Arizona) em 2022, recebeu autorização de trabalho em 2023 e habilitação californiana. A ICE o prendeu em abril de 2026, após período em que autoridades do Oregon não haviam cooperado com o detainer.
Na Flórida, em agosto de 2025, Harjinder Singh, também indiano, teria feito retorno irregular na Turnpike, bloqueando faixas. Uma minivan atingiu o conjunto; morreram três ocupantes. Singh tinha CDLs de Washington e da Califórnia. O DOT afirmou que, depois do acidente, ele acertou 2 de 12 perguntas de inglês e identificou 1 de 4 placas. Relatos oficiais da Flórida dizem que ele havia reprovado repetidas vezes em exames teóricos antes de obter a primeira habilitação. Responde a homicídio veicular.
Operações de fiscalização
Na segunda onda da Operation Highway Shield (28 a 30 de julho de 2026), em corredores de Illinois, Indiana, Iowa e Ohio, o governo informou: 51 imigrantes detidos (21 com CDL não domiciliada da Califórnia ou de Nova York), 766 condutores ou veículos colocados fora de serviço, 86 prisões por conduta perigosa, 36 autuações por inglês insuficiente e cerca de US$ 1 milhão em carga recuperada. Operação anterior em Oklahoma (outubro de 2025) teria rendido 120 prisões de imigrantes, 91 deles em veículos comerciais, segundo o DHS. Em agosto de 2026, o Departamento de Justiça anunciou ofensiva interinstitucional contra fraude em escolas, I-9, atestados médicos e possível uso de vistos de turista em transporte doméstico.
O que a ofensiva não resolve sozinha
A CDL é emitida pelos Estados, sob regras federais da FMCSA. Parte dos Estados concede habilitação independentemente do status migratório; a categoria non-domiciled*existe precisamente para estrangeiros. O governo Trump passou a restringir novas emissões e renovações dessa modalidade e a pressionar Califórnia, Washington, Massachusetts, Nova York e Pensilvânia. A Suprema Corte recusou, em 2026, ação da Flórida que queria impedir Califórnia e Washington de habilitar quem não está em situação regular.
Acidente fatal com carreta ocorre também com condutor cidadão ou residente permanente. O que o DHS isolou, e o que a linha 866-347-2423 pretende alimentar, é o cruzamento de três falhas: status migratório irregular ou precário, habilitação estadual concedida sem verificação rigorosa de elegibilidade e de idioma, e escolas que atestam formação que o exame posterior desmente. Sem esse cruzamento, o canal de denúncia vira só mais um telefone. Com ele, vira disputa federativa sobre quem pode sentar numa cabine de 40 toneladas.


