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No artigo de opinião publicado nesta quarta-feira, 9, no New York Post, a médica Qanta A. Ahmed descreve o que vê no consultório do World Trade Center Health Program: socorristas e sobreviventes que, um quarto de século depois dos atentados, ainda tratam as sequelas de ter respirado a nuvem tóxica do Ground Zero. Não é apenas memória. É doença crônica — problemas pulmonares, sinusite, refluxo, apneia do sono e cânceres reconhecidos pelo programa federal.
A autora, muçulmana observante e especialista em sono ligada a esse atendimento, usa o quadro clínico para rebater a retórica de que os Estados Unidos “mereciam” o 11 de Setembro. O ponto médico, porém, independe da polêmica política: a exposição de 2001 ainda produz pacientes em 2026.
O tamanho dessa herança ajuda a dimensionar o problema. Mais de 150 mil pessoas estão inscritas no programa federal de saúde criado para atender quem foi exposto à catástrofe. Dados recentes apontam quase 9.700 mortes por doenças relacionadas à exposição desde os atentados — número que, naturalmente, não significa que cada morte individual possa ser atribuída exclusivamente ao 11 de Setembro.
O que essas pessoas inalaram não foi fumaça comum. A queda das torres pulverizou concreto, gesso, vidro, isolamentos, materiais de escritório e combustível de avião, produzindo uma mistura complexa de poeira e contaminantes. Entre eles estavam amianto, sílica e metais. Décadas depois, a dimensão sanitária dessa exposição continua aparecendo nos consultórios e nas estatísticas.
Essa é a face visível: bombeiro, policial, morador, trabalhador com ficha, prontuário e direito reconhecido.
Existe outra.
Depois da emergência, o trabalho que “ninguém queria”
Nos primeiros dias, a desproteção foi geral. Havia busca de sobreviventes, equipamentos insuficientes e uma comunicação oficial que transmitiu à população uma avaliação excessivamente otimista sobre a qualidade do ar. A própria EPA reconheceu posteriormente problemas em sua resposta à catástrofe, e documentos do governo mostram como as autoridades enfrentaram dificuldades para avaliar e comunicar os riscos ambientais.
Isso atingiu fardados e civis. O problema, porém, muda de natureza quando a operação deixa de ser resgate e passa a ser limpeza prolongada.
Durante meses, trabalhadores removeram destroços, limparam edifícios e tentaram devolver alguma normalidade a Lower Manhattan. Em ambientes internos, a poeira continuou sendo um problema. Anos depois, investigações e documentos oficiais mostrariam que os riscos de contaminação e as deficiências na limpeza haviam sido subestimados. Documentos recentemente divulgados pela cidade de Nova York reforçam que autoridades já discutiam riscos relacionados ao amianto e às condições de trabalho enquanto a limpeza ainda estava em andamento.
Foi nesse circuito que apareceu uma mão de obra menos visível.
Diarista, dinheiro vivo, pouca pergunta
Estimativas divulgadas ao longo dos anos apontam que milhares de imigrantes indocumentados participaram dos trabalhos de recuperação e limpeza do World Trade Center. Uma reportagem da NY1, por exemplo, estimou em cerca de 6 mil o número de imigrantes sem documentos envolvidos nas operações. Muitos depois enfrentaram um segundo problema: o medo de procurar assistência médica ou registrar oficialmente a exposição.
Não se tratava necessariamente de pessoas que desconheciam a existência do risco. Tratava-se também de trabalhadores que ocupavam a posição mais frágil possível numa cadeia de reconstrução: pouca proteção trabalhista, pouca documentação e receio das autoridades migratórias.
Em alguns casos, o pagamento informal e a ausência de registros dificultaram posteriormente a comprovação de que aquela pessoa havia trabalhado no local e, portanto, tinha direito ao atendimento.
O paradoxo é brutal.
A mesma poeira podia atingir o bombeiro e o trabalhador sem documentos. A diferença aparecia depois, quando chegava a hora de provar que a pessoa esteve ali.
Dentro do programa, fora do mapa
O World Trade Center Health Program não exige cidadania americana para atender pessoas elegíveis. O problema é outro: é preciso demonstrar que houve exposição dentro dos critérios estabelecidos pelo programa.
Para quem trabalhou informalmente, sem contracheque, contrato ou registro empresarial, essa comprovação pode ser muito mais difícil. E existe ainda o medo.
Em 2021, a NBC New York relatou o caso de trabalhadores indocumentados que evitaram programas de saúde disponíveis por receio de exposição migratória. A reportagem descreveu imigrantes que participaram da limpeza e continuaram enfrentando problemas de saúde anos depois.
A estatística oficial, portanto, tem uma característica inevitável: ela conta melhor quem conseguiu permanecer dentro do sistema. A primeira fila tem nome, prontuário e benefício federal.
A segunda deixou menos rastros.
Não necessariamente porque tenha inalado menos poeira, mas porque tinha menos documentos, menos proteção e menos condições de exigir que alguém registrasse sua exposição.
A reportagem do Post parte dos pacientes que ainda entram no consultório. Eles existem, estão protocolados, recebem tratamento e fazem parte de uma tragédia sanitária que o governo americano reconheceu e passou a acompanhar.
Mas há outra história, menos organizada e muito mais difícil de medir: a de quem limpou o escritório ao lado da cratera, respirou a mesma poeira e depois desapareceu da estatística.
A doença não escolheu o visto. O sistema de cuidado, em parte, sim.


