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H. L. Mencken não descreveu o Sul dos Estados Unidos. Zombou dele.
Em 1919, no ensaio The Sahara of the Bozart, Mencken retratou o Sul dos Estados Unidos como um deserto cultural. Em 1925, durante o julgamento de Scopes, em Dayton, Tennessee, descreveu a população local em termos deliberadamente depreciativos, tratando os habitantes como caipiras e intelectualmente inferiores. Na década de 1920, a expressão Bible Belt ganhou circulação nacional para designar a faixa de forte presença protestante conservadora no Sul — embora sua autoria e origem sejam mais complexas do que a versão frequentemente atribuída a Mencken.
O insulto sobreviveu porque o rótulo sobreviveu. Cem anos depois, o historiador John Hayes, da Augusta University, observa no The Conversation como a expressão continua sendo empregada para explicar o comportamento político e cultural do Sul americano, muitas vezes como se descrevesse uma realidade geográfica objetiva, e não uma construção histórica.
Esse é o problema. Quando um rótulo nascido da caricatura passa a funcionar como categoria de análise, o preconceito ganha aparência de ciência.
O que o termo capturava — e o que escondia
Havia, evidentemente, uma realidade religiosa por trás do estereótipo. No início do século XX, batistas e metodistas tinham enorme presença no Sul. Mas Mencken transformou essa característica em explicação total. Ficaram de fora do retrato a autonomia das igrejas negras, a religiosidade popular, as diferenças de classe, a segregação racial, as restrições ao voto e as profundas divisões internas da sociedade sulista. O Sul de Jim Crow, do Cinturão do Algodão e do domínio democrata era real. Mas nunca foi apenas isso.
Outros rótulos também envelheceram. Bible Belt, não.
O Sul dos Estados Unidos mudou profundamente.
A região é hoje majoritariamente urbana e suburbana, atravessada por grandes cadeias de varejo, centros financeiros, indústrias de tecnologia, logística e energia. Sua população é racial e religiosamente muito mais diversa do que aquela observada por Mencken.
As próprias igrejas que ajudaram a formar o imaginário do Bible Belt enfrentam mudanças demográficas e perda de membros. O Sul continua sendo mais religioso e mais conservador do que outras regiões americanas em vários aspectos, mas isso não o transforma numa fotografia de Dayton em 1925.
A culture war descrita por James Davison Hunter em 1991 nunca foi exclusivamente sulista. Era, desde o início, uma disputa nacional pela definição dos valores americanos.
O volume pode ser mais alto em determinadas partes do Sul. Isso não significa que o relógio tenha parado ali.
O eco nas ‘elites brasileiras’
O mecanismo reaparece quando o rótulo substitui a descrição.
Nos Estados Unidos, o evangélico sulista ainda aparece com frequência na imprensa e no discurso acadêmico como símbolo de atraso, anti-ciência, intolerância ou nacionalismo cristão. Há casos em que essas críticas são perfeitamente legítimas. O problema começa quando deixam de descrever comportamentos específicos e passam a definir pessoas inteiras. No Brasil, o fenômeno é reconhecível.
Uma parcela da intelectualidade urbana trata “evangélico” — especialmente pentecostal e neopentecostal — como o outro interno: anti-ilustração, conservador, preso à estética religiosa e politicamente instrumentalizado.
“Crente”, “Bíblia na urna” e “bancada evangélica” podem até aparecer como atalhos explicativos. Mas nenhum deles descreve, sozinho, milhões de brasileiros.
Há o que criticar: uso político da religião, práticas financeiras abusivas, disputas de poder, posições sobre sexualidade e gênero, promessas de prosperidade e, em alguns casos, relações pouco transparentes entre púlpito e política.
Mas há também o que o estereótipo apaga: migração nordestina, mobilidade social, redes comunitárias, assistência onde o Estado chega tarde, diversidade teológica, disputas internas e milhões de fiéis que jamais ocuparão um púlpito ou uma cadeira no Congresso.
O Censo mede pessoas. O rótulo mede apenas o olhar de quem o criou.
O xingamento no lugar do censo
É aqui que a história de Mencken deixa de ser apenas uma curiosidade literária. O problema não é criticar o Sulista Norte-americano. Nem criticar igrejas evangélicas brasileiras. Nem apontar o peso da religião na política.
O problema começa quando a crítica dispensa a descrição. Mencken escrevia para provocar. Sua caricatura tinha propósito. O erro está em transformar a caricatura em método. O Sul de Walmart, subúrbios, imigrantes, igrejas negras, universidades, fábricas e centros tecnológicos não é o antigo Sul de Dayton.
O pentecostal brasileiro da periferia também não é uma caricatura pronta para confirmar a superioridade cultural de quem olha de fora. Quando o xingamento ocupa o lugar do censo, a pessoa desaparece atrás do rótulo. E quem precisa reduzir milhões de pessoas a uma caricatura para explicar seu comportamento talvez esteja, cem anos depois, repetindo exatamente o método que diz combater.


