JSNEWS
BOSTON — A presença do Immigration and Customs Enforcement (ICE) no sudoeste do Kansas, nesta semana, já produziu efeitos concretos na cadeia da carne bovina: frigoríficos ajustaram turnos, milhares de animais tiveram o embarque adiado e associações do setor alertam que, num mercado já curto de gado, a interrupção pode chegar ao preço pago pelo consumidor americano.
A região — Dodge City, Liberal e Garden City, às vezes chamada de “triângulo dourado” do abate — concentra cerca de 20% a 22% da oferta de gado confinado processado nos Estados Unidos. Lá operam plantas da National Beef e da Cargill em Dodge City, outra unidade da National Beef em Liberal e, nas proximidades, a Tyson em Holcomb/Garden City.
O Departamento de Segurança Interna afirmou que não se trata de “operações em local de trabalho” e sim de ações pontuais contra pessoas com ordem final de remoção ou antecedentes graves. Na prática, agentes pararam veículos, circularam perto de plantas e de um grande laticínio, e a presença federal gerou o que pecuaristas descreveram como “efeito intimidação”: aumento de faltas em frigoríficos, confinamentos, fábricas de ração, laticínios e transportadoras. Em alguns casos, lotes que deveriam ir ao abate voltaram aos confinamentos, com custo extra e risco sanitário.
Na quinta-feira, 24 de setembro, o USDA estimou o abate nacional em cerca de 90 mil bovinos — 16% abaixo dos cerca de 107 mil da semana anterior. Na sexta, a estimativa foi de 87 mil (−14%). Esses números são nacionais; o USDA não isolou quanto da queda veio só do Kansas. Ainda assim, a coincidência temporal com a operação é o que as entidades do setor estão monitorando.
O choque ocorre sobre um mercado já apertado. O rebanho americano está em um dos menores níveis desde o início dos anos 1950 (cerca de 86 milhões de cabeças no recenseamento de janeiro), e os preços da carne bovina no varejo e do gado vivo vinham em patamares recordes. Qualquer perda de capacidade de abate, mesmo temporária, tende a ser lida pelo mercado como pressão adicional.
A dependência de mão de obra nascida no exterior ajuda a explicar a sensibilidade do setor. Estudo do American Immigration Council estimou que, no início da pandemia, 45,4% dos trabalhadores de frigoríficos eram estrangeiros — bem acima da participação dos nascidos no exterior na força de trabalho americana em geral. Esse dado inclui cidadãos naturalizados, residentes permanentes e outros status legais; não equivale a “trabalhador irregular”.
A JBS, maior empresa de carnes do mundo, tem uma das principais plantas de bovinos dos EUA em Greeley, no Colorado. Em março, cerca de 3.800 trabalhadores da unidade (operada como Swift Beef) fizeram greve — a primeira paralisação relevante num frigorífico de bovinos americano em cerca de quatro décadas. A força de trabalho de Greeley é descrita como majoritariamente imigrante. Aquela disputa foi trabalhista (salários, equipamentos de proteção, contrato), não uma operação do ICE.
A JBS não figura como alvo da ação atual no Kansas. Os relatos desta semana concentram-se nas unidades da National Beef e da Cargill em Dodge City e Liberal. A National Beef é controlada pela brasileira MBRF (resultado da integração Marfrig–BRF; a Marfrig já detinha participação majoritária desde 2018–2019), e não pela JBS.
Para o consumidor, o ponto não é qual holding brasileira está na placa da fábrica, e sim o elo da cadeia: se a fiscalização reduzir, mesmo por medo, a disponibilidade de gente no abate e no transporte, num mercado que já falta gado, o custo extra pode aparecer na gôndola. As próprias associações de Kansas, Texas e Oklahoma apontaram esse risco. O que ainda não existe é prova de que um aumento futuro de preço se deva só a esta operação.
Operações do ICE na região foram dadas como encerradas ou em retirada no fim de semana, segundo autoridades locais. O teste agora é operacional: se o abate diário do USDA volta ao patamar da semana anterior e se os embarques de gado se normalizam.


