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Três anos depois do massacre de 7 de outubro de 2023, há uma pergunta que permanece incômoda: o mundo realmente aprendeu alguma coisa com aquele dia?
Hamas e outros grupos armados palestinos mataram cerca de 1.200 pessoas e sequestraram 251 durante o ataque contra Israel. A investigação das Nações Unidas encontrou razões suficientes para acreditar que estupros e estupros coletivos ocorreram em diferentes locais. A organização também documentou assassinatos deliberados, sequestros e abusos contra os reféns.
Nada disso é uma questão de interpretação política. São fatos.
Ainda assim, uma parte do debate público norte americano parece ter invertido a ordem moral dos acontecimentos. Poucos dias depois do massacre, já havia manifestações e iniciativas políticas exigindo cessar-fogo. Em 16 e 17 de outubro, apenas dez dias depois do ataque, organizações e parlamentares americanos já faziam esses apelos.
Defender a proteção de civis palestinos não é, por si só, antissemitismo. Tampouco é ilegítimo criticar decisões do governo israelense. Uma sociedade democrática, inclusive Israel, deve suportar críticas severas.
O problema começa quando a crítica elimina o agressor da narrativa.
Não é razoável falar da guerra sem falar de Hamas, dos reféns, dos foguetes contra Israel, da estrutura militar construída dentro de uma sociedade civil e do fato de que Gaza não realiza eleições nacionais desde 2006. Hamas tomou o controle do território em 2007 e consolidou um regime que não oferece aos palestinos de Gaza a alternância democrática que tantos de seus defensores dizem desejar.
É uma contradição que merece ser enfrentada.
Nas manifestações americanas, tornou-se comum apresentar a causa palestina como sinônimo de resistência, enquanto Israel é apresentado simplesmente como opressor. Essa simplificação transforma uma organização terrorista em personagem secundário e converte uma democracia que sofreu o maior ataque contra sua população desde sua fundação em réu permanente.
O próprio comportamento de Hamas deveria impedir essa leitura confortável.
Em julho deste ano, a ONU acusou homens armados ligados às autoridades de facto de Gaza de invadirem um ponto de distribuição de alimentos, interromperem a entrega de ajuda e colocarem trabalhadores humanitários em risco. A notícia não absolve Israel de suas responsabilidades, nem resolve a complexa crise humanitária de Gaza. Mas desmonta a ideia de que Hamas pode ser tratado apenas como espectador dos sofrimentos palestinos.
Há também um segundo fenômeno: o crescimento do antissemitismo nos Estados Unidos.
A ADL registrou 9.354 incidentes antissemitas em 2024, o maior número de sua série histórica. Nos doze meses posteriores ao 7 de Outubro, a entidade havia registrado mais de 10 mil ocorrências. O dado não significa que toda manifestação contra Israel seja antissemita. Significa, porém, que negar a existência de um problema específico de ódio contra judeus seria incompatível com as evidências.
Alguns sinais recentes mostram que existe reação.
A controvérsia envolvendo o estudante da Cornell que afirmou não querer trabalhar para um judeu e a reação à tentativa de transformar John Galliano em homenageado do Metropolitan Museum of Art demonstram que determinados limites ainda existem. No caso Galliano, a exposição prevista para 2027 acabou cancelada após forte reação às declarações antissemitas e racistas do estilista.
É importante não confundir isso com uma vitória definitiva.
O verdadeiro teste moral do pós-7 de Outubro não é exigir que todos concordem com Israel. É exigir que se aplique aos judeus e ao Estado de Israel o mesmo princípio aplicado a qualquer outra sociedade: civis têm direito à vida, uma democracia tem direito à autodefesa e terrorismo não se transforma em resistência legítima porque suas vítimas são israelenses.
Israel pode e deve ser criticado. Seu governo pode ser responsabilizado. Suas operações militares devem obedecer ao direito internacional e suas decisões políticas podem ser examinadas com rigor.
Mas nada disso exige relativizar o massacre que iniciou esta guerra.
O 7 de Outubro não criou a obrigação de escolher entre israelenses e palestinos. Criou uma obrigação muito mais simples: não esquecer quem matou, quem foi sequestrado e por quê.
Enquanto essa memória continuar sendo negociada conforme a conveniência política, o antissemitismo continuará encontrando espaço para respirar.


