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Miami/Washington — Um avô canadense que viveu legalmente nos Estados Unidos por mais de duas décadas foi deportado para o Canadá após uma condenação por fraude fiscal decorrente de impostos atrasados, mesmo enquanto quitava a dívida. O caso de Douglas Dixon, de 61 anos, ilustra como a lei de imigração americana pode levar à remoção de residentes permanentes por crimes financeiros não violentos, classificados como “felonia agravada”, e serve como alerta para outros imigrantes com residência legal.
Dixon mudou-se de Montreal para a Flórida em 2005, onde criou a família, tornou-se avô e abriu um café Tropical Smoothie. Ele e a esposa obtiveram o green card em 2019, consolidando sua condição de residentes permanentes. Durante a pandemia de Covid-19, o negócio fechou, deixando-o com mais de US$ 30 mil em dívidas tributárias. Em 2022, sem condições de pagar um advogado particular, ele aceitou o conselho de um defensor público e se declarou “no contest” (sem contestar) por evasão fiscal. Foi estabelecido um plano de parcelamento, e Dixon pagou cerca de dois terços do valor devido até o momento da prisão.
Em 10 de fevereiro, ao comparecer a uma reunião agendada com as autoridades de probation relacionada ao caso tributário, Dixon foi detido pela Imigração e Alfândega (ICE). Apesar de estar em dia com os pagamentos parciais, a condenação por fraude superior a US$ 10 mil foi enquadrada como “aggravated felony” pela legislação de imigração, o que implica remoção obrigatória, independentemente do tempo de residência, dos laços familiares ou do esforço de reparação.
Um porta-voz do Departamento de Segurança Interna (DHS) afirmou à Newsweek: “Devido ao seu histórico criminal, Dixon perdeu o status de portador de green card, e um juiz de imigração emitiu ordem final de remoção em 31 de março. Ele foi removido dos Estados Unidos em 15 de abril.” Em outra declaração, o DHS reforçou: “Um green card é um privilégio, não um direito. Se você viola nossas leis, o governo tem autoridade para revogá-lo.”
Dixon passou mais de dois meses em detenção, inicialmente no centro de imigração apelidado de “Alligator Alcatraz”, uma grande instalação no coração dos Everglades, na Flórida, inaugurada em 2025 e alvo de críticas por suas condições. Ele descreveu à CTV News uma unidade lotada com cerca de 32 detidos, na qual apenas três falavam inglês, água suja, desenvolvimento de uma infecção urinária que atribuiu ao ambiente insalubre, algemas até mesmo em visitas médicas e um sentimento geral de “desespero”. “Não imaginava que os Estados Unidos tratariam as pessoas de forma desumana. Eles não se importam com a condição humana dentro daqueles centros de detenção”, disse Dixon, que perdeu cerca de 8 quilos durante o período. “Eu estava assustado no início, porque ouvimos que lá estão membros de gangues, assassinos e estupradores, mas as pessoas que estão deportando são pessoas normais, com empregos e famílias.”
Após nove dias no “Alligator Alcatraz”, ele foi transferido para outra unidade. O processo culminou na deportação em 15 de abril. Ao chegar ao Aeroporto Pearson, em Toronto, Dixon declarou: “É bom estar de volta ao Canadá.” Ele viverá com a irmã e a família em Montreal e está proibido de retornar aos Estados Unidos pelo resto da vida.
O caso reacende o debate sobre o alcance da categoria “aggravated felony” — originalmente voltada a crimes graves — quando aplicada a infrações financeiras não violentas, como evasão fiscal. Sob a administração Trump, que ampliou as operações de enforcement migratório, residentes legais de longa data enfrentam maior risco de remoção, com limitações severas a recursos judiciais. Advogados e defensores de direitos imigratórios argumentam que a rigidez da lei não considera circunstâncias atenuantes, como dificuldades econômicas provocadas pela pandemia ou o pagamento parcial da dívida.
Para especialistas em direito migratório, o episódio de Dixon funciona como um alerta claro a todos os portadores de green card, especialmente aqueles com condenações criminais, mesmo antigas ou de natureza financeira. “Muitos imigrantes acreditam que a residência permanente os protege indefinidamente. Na prática, certas condenações podem revogar esse status e levar à deportação sumária”, observam analistas. O caso reforça a necessidade de assessoria jurídica especializada em imigração ao lidar com questões tributárias ou penais, para evitar que dívidas ou acordos judiciais aparentemente simples se transformem em barreiras intransponíveis.
Dixon, que construiu uma vida de duas décadas nos EUA, resume a experiência como uma lição dura: o sistema trata o green card como privilégio revogável, e as consequências podem ser irreversíveis, independentemente do esforço de reparação ou da integração à sociedade americana.


