Por: Edel Holz
Ceceu contava vantagens de tudo: dizia-se o mais rico de Passo Aberto, o mais corajoso, o mais mulherengo, o mais chique, o mais alegre… o mais “mais”.
O que ele não sabia é que, nas bocas ferinas da cidade, era considerado o mais chato de todos.
Ceceu era alto, garboso, bonito, charmoso — mas coçava o saco a cada cinco minutos. Usava perfumes caros, mas seu cheiro desagradável contaminava o ar. Fez clareamento nos dentes, mas o mau hálito chegava a matar as moscas que voavam por perto.
As mulheres fugiam de Ceceu, apesar do dinheiro e da Mercedes conversível. Estava em todas as capas de jornais, comandava um programa de calouros, ia todo mês para a Ilha de Caras — e nem assim tinha pretendentes.
Zuzinha, por sua vez, havia acabado de mudar de sexo. Fez a operação, tornou-se mulher, usava roupas coloridíssimas, maquiagem exagerada e saltos altíssimos. Resolveu mudar-se para uma cidade onde ninguém descobriria seu segredo. E, claro, escolheu Passo Aberto.
Chegou de avião, tropeçou na escada rolante e caiu no colo de um homem garboso, bonito, charmoso… Era Ceceu, agora prefeito da cidade!
Zuzinha não reparou no mau hálito, no cheiro ruim, nem se incomodou quando ele começou a contar vantagens no café do aeroporto. Foi amor à primeira vista — e virou eterno.
Nas reuniões em casa, quando o marido se dizia o homem mais macho de Minas Gerais, casado com a mulher mais feminina do Brasil, Zuzinha ria faceira, sozinha, na sua intimidade de primeira-dama, deixando Ceceu se divertir contando vantagens.
SOBRE A COLUNISTA: Edel Holz é a mais premiada e consagrada atriz, roteirista, diretora e produtora teatral brasileira nos Estados Unidos. Inquieta e de mente profícua, Edel tem sempre um projeto cultural engatilhado para oferecer para a comunidade brasileira. Depois de anos de ausência, Edel volta a abrilhantar as páginas de um jornal. Damos as boas vinda à poderosa e de mente efervescente Edel.


