Edel Holz
Abram alas para o povo de Passos, passar! Bora celebrar os livros e seus autores, o teatro e os artistas da cidade que anda! Agora, a nostalgia é quem manda. Como me divertia nas minhas férias… basta fechar os olhos e vejo Silas Figueiredo no palco do CPN, irretocável como Tirésias — o cego que tudo vê. Vejo Gustavo interpretando magistralmente Édipo Rei e Gilda Parenti como Jocasta, sendo aplaudida de pé em cena aberta. Ela usava na cabeça uma echarpe dourada de mamãe, se estou bem certa.
Vejo Grilo como Cristo no auditório do CIC, comendo na Santa Ceia o pão que nossa Bá fez. Vejo Terêncio, por sua vez, transbordando talento em Os Rapazes da Banda, e o Grupo Alfa de Teatro enlouquecendo essa cidade que anda! Reinaldo Barbosa encantava a plateia passense com maestria e um toque circense. Chiquinho Negrão surgia como Jesus em plena Matriz, e Clélia Monteiro em Gota D’Água fazia Dionísio feliz. Urias aparecia como Herodes na Paixão e depois voava alto, conquistando esse mundão. Graça e sua irmã Anízia brilhavam como as gêmeas de Aurora da Minha Vida. Me emociono ao lembrar de tanta gente querida… Vi o Teatro Rotary ser inaugurado com O Inspetor Geral, em um momento genial. Assisti Eh Ardeia, Pato e Peru, com Zininha inesquecível no papel que Marlene Dietrich eternizou no cinema em Testemunha de Acusação. Marcelo Apolidório brilhou em Amadeu Corintiano da Silva como Pezinho, que sonhava jogar na seleção, e protagonizou
O Poeta da Vila, vivendo Noel Rosa ao lado de Guatabi, que dizia: “Ah Noel… não me faz essa faceta!” Meu irmão, que hoje está no céu, escreveu e dirigiu As Crônicas da Cidade Amada, trazendo momentos inesquecíveis da nossa cidade, como o trote da Turma da Barrinha dizendo que a represa de Furnas havia estourado, causando caos no município inteiro — porque pensaram ser verdade! Um belo dia, Maurílio Romão teve uma ideia ousada: criar o Festival Nacional de Teatro de Passos e, a cada ano, homenagear um artista diferente, que tivesse garra, talento e representasse nossa gente. Este ano é a vez de Graça Garcia saber que santo de casa faz milagre, sim! Falo isso por mim. Quando subi no palco do teatro que hoje se chama Gustavo José Lemos, meu irmão de sangue e de arte, recebi o troféu que levava meu nome às lágrimas, sabendo que, para melhorar o mundo, eu faço a minha parte.
Mesmo sendo difícil demais, não desisto jamais! O Festival traz artistas de todo o Brasil, seja para o palco principal ou para cada ponto da cidade que anda. E é o público que manda! Tudo começou com o Grupo Galpão e seu Gigante da Montanha. Nem a chuvarada atrapalhou a façanha.
Comprava minha passagem para julho só para prestigiar o festival, feliz da vida ao lado de Luís Eduardo Simão, meu companheiro de peças e serestas pra lá de especial. Vi Gabriel Villela com seu braço direito, Caju Ribeiro, na Estação e na Matriz com O Auto da Compadecida. Vi Paulo Betti em sua autobiogra a e Tato Fischer exalando poesia no palco. Vi os seresteiros de Paraíso em plena praça, cantando para a gente de graça.
O teatro me acorda pra vida! No ano da minha homenagem, Rosi fez leitura dramatizada com Maria do Carmo Soares, e temos a certeza de que o teatro ilumina os ares. Viva os dez anos do Festival Nacional de Teatro de Passos! Viva nossos artistas, autores, atores, diretores e cartunistas! Viva! Parabéns, Passos! Um beijo para minha cidade, cheio de saudade.
Te amo, Passos, Minas Gerais, da sua filha querida, Edelweiss.
SOBRE A COLUNISTA: Edel Holz é a mais premiada e consagrada atriz, roteirista, diretora e produtora teatral brasileira nos Estados Unidos. Inquieta e de mente profícua, Edel tem sempre um projeto cultural engatilhado para oferecer para a comunidade brasileira. Depois de anos de ausência, Edel volta a abrilhantar as páginas de um jornal. Damos as boas vinda à poderosa e de mente efervescente Edel.


