Por: Alfredo Melo
A última rodada do Campeonato Sergipano tinha como jogo principal da rodada a partida entre Sergipe e Itabaiana. Se o confronto tivesse sido cancelado, não faria falta alguma para o torcedor nem para o campeonato. O Sergipe já havia conquistado o título com três rodadas de antecedência e comemorado com sua torcida em duas ocasiões: primeiro, quando derrotou o Confiança e garantiu a taça; depois, no jogo contra o River, quando recebeu oficialmente o troféu.
O Itabaiana, por sua vez, havia sido rebaixado para a Série B na rodada anterior. Uma partida sem apelo algum para o público. Para piorar, o Itabaiana enfrentava uma grave crise financeira: quatro meses de salários atrasados para jogadores e funcionários; oito atletas com contrato vencendo justamente na última rodada; refeições cortadas pelo restaurante fornecedor por falta de pagamento; transporte suspenso pela empresa responsável, também por inadimplência; e outras dificuldades. Como sair do interior para jogar na capital? Como viajar sem dinheiro para transporte e estadia? Não comparecer e perder por WO poderia ser uma solução, mas como o clube pagaria a multa à Federação Sergipana?
Depois de muito sofrimento, o presidente Cícero Dantas decidiu que jogadores e comissão técnica se encontrariam diretamente na porta do Estádio Lourival Baptista, o “Batistão”. Assim, não haveria gastos com transporte, hospedagem ou alimentação. No domingo, na hora marcada, a comissão técnica contava apenas com dez jogadores — nenhum titular e nenhum goleiro.
No vestiário, surgiu a dúvida: entrar com um jogador de linha improvisado no gol e apenas nove na linha, ou procurar entre os poucos torcedores presentes alguém disposto a assumir a posição. Usar um jogador irregular significaria perder seis pontos, o que não faria diferença para quem já estava rebaixado. Optaram pela segunda alternativa. O roupeiro conseguiu um voluntário para o gol, completando os onze em campo. Resumo da ópera: cada chute do Sergipe em direção à baliza virava gol.
Com 7 a 0 ainda no primeiro tempo, o capitão do Itabaiana chamou o capitão do Sergipe, explicou a situação e pediu que parassem de finalizar. Penalizado, o capitão colorado sugeriu que simulassem a contusão de cinco jogadores, ficando com apenas seis em campo, o que levaria o árbitro a encerrar a partida. Sugestão dada, sugestão aceita.
Quando os times deixavam o gramado após o apito final, os repórteres correram em direção ao goleiro improvisado do Itabaiana e perguntaram como um torcedor se sacrificava a ponto de ir para o gol, tentando ajudar seu time de coração mesmo já rebaixado.
O torcedor respondeu rapidamente — “Não foi sacrifício pra mim, não. Foi um prazer. Ninguém me perguntou nada, mas eu sou torcedor é do Sergipe.” E saiu de campo às gargalhadas.
Bem, até que enfim o Alfredo Melo assume a verdade que nunca quis calar: ele é o Gatinho Cruel, que agora sai de cena para dar lugar ao seu criador. Enorme criatura no sentido literal, na bondade, no caráter e no conhecimento profundo do futebol e das coisas boas da vida, inclusive pratos deliciosos. Ah, tem também a paixão pelo Botafogo cada dia maior…


