Eliana Pereira Ignacio
Olá, meus caros leitores… Ao longo das últimas semanas, caminhamos juntos por uma jornada de acolhimento emocional. Falamos sobre a importância de permitir que a alma descanse, sobre o valor das pequenas alegrias e sobre como nem todo dia precisa ser uma grande superação.
Mas talvez exista uma pergunta que permaneça silenciosamente por trás de todos esses temas: Por que tantas pessoas têm tanta dificuldade de descansar, sentir alegria e abandonar a autocobrança? A resposta não é simples, mas talvez esteja escondida em uma característica cada vez mais valorizada pela sociedade moderna: a força.
Aprendemos desde cedo a admirar quem suporta tudo. Aplaudimos quem nunca para. Quem nunca reclama. Quem continua mesmo cansado. Quem resolve os problemas de todos. Quem mantém o sorriso enquanto enfrenta batalhas que ninguém conhece. Com o passar do tempo, muitas pessoas deixam de enxergar a força como uma capacidade e passam a enxergá-la como uma obrigação. E é exatamente aí que nasce um dos cansaços mais profundos da vida adulta.
O cansaço de ser forte o tempo todo. Na prática clínica, é comum encontrarmos pessoas que não sabem mais como pedir ajuda. Não porque sejam arrogantes ou indiferentes, mas porque passaram tantos anos sustentando tudo ao seu redor que já não conseguem reconhecer as próprias necessidades emocionais. São mães que cuidam de todos e esquecem de si mesmas. São profissionais que acolhem e orientam o dia inteiro, enquanto carregam suas próprias dores em silêncio. São cuidadores, líderes, esposas, maridos, filhos e amigos que se tornaram referência para tantas pessoas que começaram a acreditar que não têm o direito de fraquejar.
Entretanto, a psicologia nos mostra algo importante: a resiliência saudável não significa ausência de sofrimento. A pesquisadora Brené Brown, conhecida por seus estudos sobre vulnerabilidade e coragem, afirma que a verdadeira força emocional não nasce da perfeição ou da invulnerabilidade, mas da capacidade de reconhecer nossas limitações e pedir apoio quando necessário.
Da mesma forma, Kristin Ne, pesquisadora da Universidade do Texas e referência mundial em autocompaixão, demonstra em seus estudos que pessoas que se tratam com gentileza diante das próprias dificuldades apresentam maior equilíbrio emocional e menor risco de ansiedade, depressão e esgotamento psicológico. Isso significa que ser forte não é suportar tudo sozinho. Ser forte também é reconhecer quando estamos cansados. Talvez uma das maiores armadilhas emocionais da atualidade seja a romantização da força.
Vivemos cercados por mensagens que incentivam a produtividade constante, a superação permanente e a ideia de que sempre devemos estar evoluindo. Mas poucos falam sobre o custo emocional dessa exigência. Poucos falam sobre as lágrimas escondidas. Sobre o cansaço acumulado. Sobre as noites mal dormidas. Sobre a solidão de quem é o apoio de todos, mas raramente encontra um lugar para repousar.
E, aos poucos, muitas pessoas passam a acreditar que descansar é sinal de fraqueza. Que pedir ajuda é fracasso. Que admitir limites é incompetência. Mas não é. Na verdade, reconhecer limites é um dos maiores sinais de maturidade emocional. O corpo humano foi criado para alternar esforço e recuperação.
O cérebro necessita de pausas para regular emoções, consolidar memórias e restaurar energia mental. Quando permanecemos por muito tempo em estado de alerta e responsabilidade constante, nosso sistema emocional começa a cobrar um preço. Primeiro surge o cansaço. Depois a irritabilidade. Em seguida a dificuldade de sentir prazer. E, muitas vezes, o esgotamento emocional. Por isso, descansar não é luxo. É necessidade.
Acolher a própria fragilidade não é fraqueza. É saúde emocional. Talvez o maior aprendizado da maturidade não seja descobrir o quanto conseguimos suportar. Talvez seja descobrir que não fomos feitos para carregar tudo sozinhos. Na visão cristã, existe algo profundamente libertador nessa compreensão.
“A minha graça te basta, porque o meu poder se aperfeiçoa na fraqueza.”
2 Coríntios 12:9
Eliana Pereira Ignacio é Psicóloga, formada pela PUC – Pontifícia Universidade Católica – com ênfase em Intervenções Psicossociais e Psicoterapêuticas no Campo da Saúde e na Área Jurídica; especializada em Dependência Química pela UNIFESP Escola Paulista de Medicina em São Paulo Unidade de Pesquisa em Álcool e Drogas, entre outras qualificações. Mora em Massachusetts e dá aula na Dardah University. Para interagir com Eliana envie um e-mail para epignacio_vo@hotmail.com ou info@jornaldossportsusa.com


