JUNOT (Opinião ) –
A reação de parlamentares brasileiros de Massachusetts ao encontro de pastores com Mike Minogue, candidato republicano ao governo do estado de Massachusetts, revela um problema que merece ser examinado para além das preferências partidárias. A controvérsia envolve direitos dos imigrantes, interesses eleitorais e, sobretudo, a compreensão do que significa viver em uma democracia.
A reação de parlamentares brasileiros de Massachusetts ao encontro de pastores com Mike Minogue, candidato republicano ao governo do estado, revela um problema que merece ser examinado para além das preferências partidárias. Em nota conjunta, os representantes estaduais Priscila Sousa, Rita Mendes e Danillo Sena, além de Lorena G. Betts, criticaram a iniciativa de lideranças evangélicas brasileiras de se reunir com o candidato.
A preocupação com os direitos dos imigrantes é legítima. A legislação de Massachusetts permite, desde 2023, que pessoas sem comprovação de situação migratória regular obtenham carteiras de motorista, desde que cumpram os requisitos estaduais. A possibilidade de revogar essa política e as propostas de endurecimento da fiscalização migratória merecem debate público, especialmente pelas consequências que podem produzir em comunidades nas quais famílias inteiras construíram suas vidas ao longo de anos ou décadas.
Mas reconhecer a legitimidade dessas preocupações não exige concluir que pastores brasileiros deveriam evitar o diálogo com um candidato que defende posições contrárias aos interesses de parte da comunidade que representam.
O direito de reunião não pode ser condicionado à aprovação dos representantes políticos de uma comunidade. Se a democracia pressupõe liberdade de expressão, essa liberdade precisa valer também quando o interlocutor defende ideias incômodas, controversas ou mesmo hostis a direitos que consideramos fundamentais.
É justamente com adversários que o diálogo político se torna mais necessário. Conversar não significa concordar, assim como ouvir não significa aderir. Uma reunião pode servir para questionar propostas, apresentar argumentos, expor consequências econômicas e sociais ou simplesmente conhecer melhor as intenções de um candidato. Sem informações sobre o conteúdo da conversa, não há fundamento para atribuir aos participantes uma adesão automática às ideias de Minogue.
O problema começa quando o simples contato com determinado político passa a ser tratado como uma espécie de transgressão moral, sujeita à condenação pública. Quando o simples contato com um adversário político passa a ser motivo de condenação pública, o debate corre o risco de ceder lugar à vigilância ideológica, e a divergência pode ser interpretada como deslealdade.
Há, nessa reação, uma questão que merece reflexão. Ao reivindicar proteção contra propostas consideradas excludentes, corre-se o risco de estimular uma lógica igualmente excludente: a de que integrantes de uma comunidade precisam se manter alinhados a determinadas lideranças e partidos para serem reconhecidos como representantes legítimos de seus próprios interesses.
Os imigrantes brasileiros não constituem um bloco político homogêneo. Há democratas, republicanos, independentes e pessoas que não se identificam com partido algum. Há religiosos conservadores, liberais nos costumes, empresários, trabalhadores assalariados e cidadãos cujas convicções não cabem nas categorias simplificadoras da política eleitoral, há também.
Muitos construíram empresas, compraram imóveis, empregam trabalhadores, pagam impostos e participam da vida econômica e social de Massachusetts. Sua contribuição não lhes impõe uma obrigação de votar em determinado partido, assim como sua condição migratória não os torna automaticamente alinhados a uma corrente ideológica.
Essa realidade tem também uma dimensão eleitoral que os candidatos não deveriam ignorar. Uma comunidade economicamente ativa, organizada e cada vez mais presente na vida pública não pode ser tratada apenas como um conjunto de votos a conquistar ou de pessoas a mobilizar em favor de uma agenda partidária. Seus integrantes, brasileiros em Massachusetts têm interesses concretos, opiniões próprias e capacidade de avaliar propostas.
É precisamente por isso que o diálogo com candidatos de diferentes correntes políticas pode ser útil. Se um republicano defende restringir direitos considerados essenciais por parte dos imigrantes, há razões para confrontá-lo com os efeitos dessas medidas sobre o mercado de trabalho, os pequenos negócios, a arrecadação e a estabilidade das famílias. Há, ainda, razões para cobrar explicações sobre a aplicação dessas políticas e suas consequências para o próprio estado.
Nada disso exige abandonar princípios ou relativizar ameaças a direitos. Exige, ao contrário, argumentos, informação e disposição para o confronto democrático. Uma posição contrária pode ser contestada com firmeza sem que se tente impedir o interlocutor de falar ou se condene quem aceita ouvi-lo.
A experiência americana, com todas as suas contradições históricas, tem na liberdade de expressão e na pluralidade política alguns de seus fundamentos institucionais. Isso não significa que todas as opiniões sejam igualmente corretas, nem que toda proposta mereça aceitação. Significa que ideias devem ser examinadas, confrontadas e, quando necessário, derrotadas pelo debate público, pelos votos e pelos mecanismos legais.
A liberdade de expressão também protege manifestações que consideramos equivocadas. É preferível que um candidato exponha abertamente suas propostas a que esconda suas intenções sob uma linguagem conveniente. Conhecer o que alguém defende é condição para avaliar seu caráter político, questionar suas premissas e decidir se merece apoio.
Da mesma forma, não cabe transformar pastores, jornalistas, empresários ou qualquer outra liderança comunitária em representantes de um rebanho obrigado a seguir uma orientação política uniforme. A autoridade religiosa não confere propriedade sobre a consciência dos fiéis; a representação parlamentar tampouco concede a seus titulares o monopólio da interpretação dos interesses de uma comunidade.
O mesmo vale para o outro lado. Candidatos que pretendem conquistar o apoio de imigrantes precisam compreender que essas pessoas não são instrumentos de uma campanha, tampouco uma população disponível para ser mobilizada por discursos de medo, ressentimento ou identidade partidária. Esperar obediência política em troca de atenção eleitoral é uma forma de desrespeitar a autonomia de cidadãos e residentes que têm suas próprias prioridades.
A experiência política brasileira também oferece exemplos dos efeitos da lógica do “nós contra eles”. Quando a identidade partidária se sobrepõe à análise dos fatos, o adversário deixa de ser alguém a ser contestado e passa a ser tratado como inimigo. Seria um erro transportar essa lógica para a comunidade brasileira nos Estados Unidos, justamente quando ela busca ampliar sua participação e consolidar seu espaço na sociedade americana.
A nota dos parlamentares pode ser lida como uma manifestação legítima de preocupação com direitos conquistados. Mas a defesa desses direitos ganha força quando se apoia em argumentos e evidências, não na expectativa de que todos compartilhem a mesma estratégia política. A democracia não se fortalece quando a divergência política é tratada como motivo para desqualificar o diálogo com quem pensa diferente.
O teste de uma comunidade democrática não é a unanimidade de suas lideranças, mas sua capacidade de conviver com a divergência sem transformar diferenças políticas em acusações de deslealdade.
Se os pastores consideram que podem dialogar com Minogue, têm o direito de fazê-lo. Se os parlamentares entendem que as propostas do candidato ameaçam os imigrantes, têm o dever de explicar por quê e de combatê-las politicamente. E, se os integrantes da comunidade discordam de uns ou de outros, devem poder expressar suas opiniões sem serem tratados como adversários de sua própria gente.
A liberdade perde substância quando só é defendida para os que pensam como nós. E a democracia deixa de cumprir sua função quando a divergência passa a depender da autorização de quem acredita falar em nome de todos.
Afinal, ninguém precisa concordar com Mike Minogue para reconhecer o direito de outros brasileiros de se sentarem à mesma mesa que ele. Tampouco é necessário aprovar a estratégia dos pastores para defender sua liberdade de escolha.
Em uma sociedade livre, o diálogo não é uma declaração de fidelidade. É um instrumento para testar ideias, expor diferenças e cobrar responsabilidades. Quem confia na força dos próprios argumentos não precisa exigir silêncio dos demais.



