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Dez anos depois de legalizar a maconha para uso recreativo, Massachusetts voltará a decidir sobre o futuro da política que transformou a cannabis em um mercado bilionário no estado. Em 3 de novembro, os eleitores votarão a Questão 8, proposta que pretende acabar com as vendas comerciais para uso recreativo, preservando o programa de maconha medicinal e permitindo a posse limitada da substância por adultos.
A nova consulta não decorre necessariamente de uma mudança de opinião da maioria da população. Ela resulta de uma iniciativa organizada para reverter a decisão tomada em 2016, quando os eleitores aprovaram a legalização. O movimento ganhou força com o argumento de que a expansão comercial da cannabis produziu consequências sanitárias e sociais que, segundo seus defensores, não receberam atenção suficiente na época da votação.
Saúde pública no centro do debate
A campanha pela revogação é liderada pela Coalition for a Healthy Massachusetts, que reúne defensores de políticas mais restritivas para a cannabis. Seus argumentos se concentram nos possíveis efeitos do consumo sobre a saúde mental, na exposição de crianças a produtos com THC — o principal componente psicoativo da maconha — e nos riscos de dirigir após o uso da substância.
Um dos estudos citados pela campanha foi publicado em 2025 por pesquisadores ligados ao Mass General Brigham. A pesquisa identificou um aumento expressivo dos transtornos relacionados à cannabis entre adolescentes atendidos em serviços de emergência psiquiátrica após a legalização, com crescimento próximo de quatro vezes. Os pesquisadores, porém, não encontraram aumento equivalente entre adultos nesse grupo estudado.
O resultado reforça a preocupação com jovens que já apresentam problemas psiquiátricos, mas exige uma distinção importante: a pesquisa não demonstra, por si só, que a legalização tenha provocado um aumento generalizado de doenças mentais entre todos os adolescentes do estado.
Os defensores da Questão 8 também criticam a comercialização de produtos com alta concentração de THC e a apresentação de comestíveis em embalagens semelhantes às de doces e biscoitos, que podem facilitar a ingestão acidental por crianças.
A discussão, portanto, deixou de se limitar à liberdade individual de consumir maconha. Passou a envolver os limites da atividade comercial, a proteção de menores e a responsabilidade do poder público diante dos possíveis custos sanitários.
Os resultados de uma década
A legalização criou um setor econômico relevante. Segundo a Comissão de Controle da Cannabis de Massachusetts, as vendas recreativas acumuladas ultrapassaram US$ 10 bilhões em 2026. No ano fiscal de 2025, a tributação dessas vendas arrecadou aproximadamente US$ 280 milhões para o estado e outros US$ 50 milhões para os municípios.
Os opositores da revogação afirmam que a proibição das vendas legais destruiria milhares de empregos, prejudicaria empresas licenciadas e devolveria parte da demanda ao mercado clandestino, sem os controles de qualidade, rotulagem e restrições etárias existentes no sistema regulamentado.
Também contestam a interpretação dos dados de saúde pública. Segundo informações citadas pela WBUR, a proporção de estudantes do ensino médio de Massachusetts que relataram consumo de cannabis nos 30 dias anteriores caiu de 26% em 2019 para 12% em 2025. A redução contraria a ideia de que o consumo adolescente tenha aumentado continuamente após a legalização, embora não elimine os riscos identificados em grupos específicos.
O que mudaria se a proposta fosse aprovada?
A Questão 8 não restabeleceria uma proibição absoluta. Adultos com 21 anos ou mais continuariam autorizados a possuir até uma onça de maconha, com limite de cinco gramas para concentrados. O uso medicinal permaneceria legal, mas as vendas recreativas regulamentadas seriam eliminadas.
Se aprovada, a medida entraria em vigor em 1º de janeiro de 2028, permitindo a transição de estabelecimentos recreativos interessados em obter licenças para atuar no mercado medicinal.
A votação será um teste importante para a política de drogas nos Estados Unidos: mostrará se os eleitores de um estado que ajudou a consolidar a legalização estão dispostos a recuar diante das preocupações com seus efeitos. Mais do que decidir sobre a maconha, Massachusetts terá de avaliar se os problemas apontados justificam desmontar um mercado regulamentado ou se a resposta mais eficaz seria aperfeiçoar a fiscalização, a prevenção e o tratamento.


