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Ancara/Washington/Bruxelas — O presidente americano Donald Trump declarou nesta quarta-feira (8) que o cessar-fogo com o Irã “está acabado”, após uma nova rodada de confrontos no Estreito de Ormuz. A escalada teve início com ataques iranianos a navios comerciais que transitavam pela estratégica via marítima, segundo informações do Comando Central dos EUA (Centcom). Teerã nega ter iniciado as hostilidades e acusa Washington de violar compromissos assumidos em acordos anteriores.
A tensão provocou forte alta nos preços do petróleo. O Brent subiu mais de 5% em um único dia, reacendendo temores de uma nova crise energética global. Diferentemente dos Estados Unidos, que contam com significativa produção doméstica de óleo e gás, os países da zona do euro são os mais expostos ao choque de preços, mas têm optado por uma postura predominantemente crítica e distante do envolvimento militar direto.
Reivindicações iranianas e o direito internacional
O Irã sustenta que exerce soberania sobre o Estreito de Ormuz e que tem o direito de regular a navegação, inclusive determinando rotas autorizadas e cobrando taxas. Teerã argumenta que apenas a “passagem inocente” seria aplicável em suas águas territoriais e acusa os EUA de violarem o Memorando de Entendimento firmado em junho ao realizarem manobras e ameaças que, segundo Teerã, comprometem a segurança regional.
Essas reivindicações, no entanto, não são reconhecidas pela comunidade internacional. A maioria dos países e organismos multilaterais considera o Estreito de Ormuz um estreito internacional usado para navegação, no qual vigora o regime de passagem em trânsito (transit passage), previsto na Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar (Unclos). Esse regime garante a liberdade de navegação contínua e rápida, inclusive para navios de guerra, sem necessidade de autorização prévia do Estado costeiro — posição que o Irã rejeita, pois não ratificou integralmente a convenção e contesta a natureza costumeira de algumas de suas disposições.

A sequência dos fatos
De acordo com fontes militares americanas e relatos de agências marítimas, a atual escalada começou quando o Irã realizou ataques contra embarcações comerciais que navegavam pelo Estreito de Ormuz — incluindo um petroleiro saudita e um navio de GNL do Catar. O Centcom classificou as ações como “agressão injustificada” e violação do cessar-fogo.
Em resposta, os Estados Unidos realizaram ataques aéreos contra mais de 80 alvos iranianos, incluindo sistemas de defesa aérea, radares e embarcações da Guarda Revolucionária. O Irã retaliou com mísseis e drones contra instalações americanas no Bahrein e no Kuwait.
Foi nesse contexto que Trump, durante a cúpula da Otan em Ancara, afirmou que “o cessar-fogo está acabado” e que não pretende mais negociar com o atual governo iraniano.
Europa paga a conta, mas fica de fora
Enquanto os Estados Unidos conseguem mitigar parte do impacto graças à sua produção interna de energia, os países europeus enfrentam consequências mais severas. A dependência de importações de petróleo e gás via Oriente Médio torna a zona do euro particularmente vulnerável à alta dos preços e a eventuais interrupções no fornecimento.
Economistas alertam para riscos de inflação persistente, redução do crescimento e pressão sobre indústrias intensivas em energia, como a química e a siderúrgica na Alemanha e na Itália. A Comissão Europeia e o Banco Central Europeu já revisaram para baixo projeções de crescimento para 2026 diante do cenário de instabilidade no Golfo.
Diante desse quadro, os países europeus têm adotado uma postura marcadamente cautelosa. A União Europeia tem evitado qualquer envolvimento militar direto ao lado dos americanos, preferindo reforçar missões de proteção à navegação (como a operação Aspides, originalmente voltada ao Mar Vermelho) e manter canais diplomáticos abertos. Líderes europeus têm criticado publicamente o que consideram “escalada unilateral” por parte de Washington e defendido que a solução deve passar por negociações.
“Esta não é a nossa guerra”, resumiu em tom semelhante uma autoridade europeia de alto escalão nas últimas semanas, ecoando a posição de vários governos do bloco que preferem não se alinhar automaticamente às ações militares americanas.
Riscos de uma crise prolongada
Analistas avaliam que a decisão de Trump de declarar publicamente o fim do cessar-fogo aumenta o risco de novos confrontos. O Estreito de Ormuz responde por cerca de 20% do comércio mundial de petróleo. Qualquer interrupção prolongada teria efeitos em cascata sobre a inflação global e o crescimento econômico — com impacto desproporcional sobre economias importadoras líquidas de energia, como as da Europa.
Enquanto isso, o Irã mantém sua narrativa de que age em defesa da soberania e em resposta a agressões anteriores. A comunidade internacional, no entanto, continua a cobrar o respeito às normas de navegação livre em estreitos internacionais — uma posição que, até o momento, Teerã se recusa a aceitar integralmente.
A crise, que já dura meses, entra agora em uma fase ainda mais imprevisível, com a Europa observando de longe — e pagando a conta — enquanto Washington e Teerã trocam acusações e golpes.


