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Boston, 14 de Abril de 2026 — A evasão no ensino superior brasileiro atinge proporções significativamente maiores do que nos Estados Unidos. Enquanto nos EUA cerca de 39% dos estudantes que ingressam não concluem o curso em até seis anos, no Brasil a taxa de não conclusão acumulada fica entre 57% e 64%, segundo dados do Mapa do Ensino Superior no Brasil (Instituto Semesp, edições 2024 e 2025, com base no Censo da Educação Superior do Inep).
Nos Estados Unidos, a taxa de conclusão em seis anos para estudantes de graduação gira em torno de 61%, de acordo com o National Student Clearinghouse Research Center (dados referentes a coortes recentes até 2023-2024). No Brasil, a taxa de conclusão acumulada oscila entre 34% e 40% no mesmo período aproximado de acompanhamento. A diferença é ainda mais acentuada na modalidade a distância (EaD), onde a evasão anual chegou a 41,6% em 2024 na rede privada — o maior patamar da série histórica iniciada em 2014.
Retomada dos estudos
Nos EUA, o fenômeno dos “stopouts” — estudantes que interrompem os estudos temporariamente — afeta cerca de 38 a 43 milhões de adultos em idade ativa com “alguma faculdade, mas sem diploma”. Em 2023-2024, mais de 1 milhão desses estudantes se reinscreveram, um aumento de 7% em relação ao ano anterior, segundo o National Student Clearinghouse. Embora a maioria pretenda retornar, a efetiva retomada segue baixa, em torno de 2% a 3% da população total de stopouts.
No Brasil, programas estruturados de retomada são menos desenvolvidos. A evasão acumulada supera em muito as reinscrições, e não há dados consolidados de escala nacional comparáveis aos americanos. A rede privada, responsável por cerca de 80% a 88% das matrículas, registra as maiores taxas de abandono, especialmente em cursos EaD.
Diferença por gênero
Em ambos os países, a desistência é liderada por homens. No Brasil, entre os ingressantes de 2014 acompanhados até 2023-2024, a taxa de evasão acumulada chegou a 65% entre os homens e 56% entre as mulheres, com taxas de conclusão de 34% e 43%, respectivamente (Inep/Censo da Educação Superior). Nos Estados Unidos, os homens também apresentam maior propensão a abandonar os estudos, embora a diferença de gênero seja menos pronunciada do que no Brasil.
Mulheres utilizam com maior frequência os serviços de orientação, bolsas de permanência e programas de apoio estudantil oferecidos pelas instituições. Homens, por sua vez, recorrem menos a esses serviços, o que contribui para a maior taxa de evasão.
Os motivos que levam à interrupção dos estudos são semelhantes nos dois países: dificuldades financeiras, necessidade de conciliar trabalho em tempo integral, responsabilidades familiares, problemas de saúde e pequenos obstáculos burocráticos ou administrativos. Em ambos os casos, a vida cotidiana interfere na trajetória acadêmica.
No entanto, esses fatores incidem com maior intensidade no Brasil. A forte dependência da rede privada, o alto custo das mensalidades, a expansão acelerada do EaD (modalidade com menor retenção) e a qualidade variável da educação básica amplificam os riscos de abandono. Além disso, persistem expectativas sociais de gênero que influenciam o comportamento: os homens ainda enfrentam maior pressão para assumir o papel de provedor familiar desde cedo, priorizando o emprego em detrimento dos estudos. Essa norma cultural, combinada à menor busca por suporte institucional, explica parte da liderança masculina na evasão tanto no Brasil quanto nos Estados Unidos.
Enquanto os EUA registram avanços em iniciativas de retorno por meio de bolsas direcionadas, coaching e remoção de barreiras burocráticas, o Brasil ainda apresenta carência de políticas robustas de permanência e retomada em escala nacional. A elevada evasão representa um desperdício de recursos públicos e privados e limita o potencial de elevação da escolaridade da população adulta, que ainda tem apenas 18,4% com ensino superior completo (Censo 2022, IBGE).


