Por José Carlos –
Nos últimos meses, a Immigration and Customs Enforcement (ICE) intensificou operações de detenção em aeroportos dos Estados Unidos, incluindo o Logan International Airport, em Boston. A agência passou a cruzar sistematicamente as listas de passageiros fornecidas pela Transportation Security Administration (TSA) com seus bancos de dados migratórios, identificando estrangeiros com vistos vencidos ou status irregular — mesmo aqueles que possuem autorização de trabalho válida, Real ID e número de Seguro Social, e que residem no país há mais de duas décadas.
A estratégia, alinhada à meta da atual administração de elevar as prisões diárias para cerca de 2 mil pessoas em todo o território americano, transformou terminais aéreos em pontos de interceptação. Casos recentes em Logan ilustram a prática: pessoas com processos de imigração em andamento estão sendo detidas durante deslocamentos domésticos rotineiros.
Alex Colombini, CEO do Jornal dos Sports USA e que faz parte da equipe do departamento comercial da Nossa Rádio, é um desses casos. Portador de autorização de trabalho, Real ID e número de Seguro Social, ele reside nos Estados Unidos há mais de duas décadas e mantém processo imigratório em trâmite. No dia 16 de julho de 2026, ele foi detido no Aeroporto Logan, em Boston, ao tentar embarcar para a Flórida.
Foi levado ao centro de triagem do ICE em Burlington, Massachussetts, de lá para as instalações do Ice em Plymouth, no mesmo estado, onde permaneceu 11 dias, que segundo ele, foram dias muito difíceis, sendo libertado sob fiança de US$ 1.500 no dia 27 de julho, sob o trabalho brilhante do corpo jurídico da Gardini Law e da sustentação oral do Dr. Durcio.
A seguir, seu depoimento:
A abordagem no Aeroporto Logan – “O dia 16 de julho de 2026 ficará marcado para sempre na minha memória. Cheguei ao Aeroporto Internacional Logan para embarcar em um voo doméstico da Frontier com destino à Flórida. O check-in havia sido realizado normalmente, passei pela inspeção da TSA sem qualquer problema e aguardava o embarque no Terminal E.
Foi então que um homem se aproximou de mim. Sem uniforme, sem colete da ICE e sem chamar a atenção de ninguém, ele me chamou pelo nome e pediu que eu o acompanhasse. Outros dois agentes, também à paisana, caminhavam ao seu lado. Não houve gritos, tumulto ou qualquer tipo de exposição pública. A abordagem foi extremamente discreta.
Eles não pediram meus documentos. Já sabiam quem eu era. Caminhei até a área externa do aeroporto e, somente ao entrar no veículo, fui algemado. Naquele instante parecia que eu estava vivendo uma cena de cinema. Demorei alguns minutos para acreditar que aquilo estava realmente acontecendo.”
Surpresa – “Eu possuo autorização de trabalho, número de Seguro Social, Real ID e um processo imigratório em andamento. Por isso, jamais imaginei que seria detido ao embarcar em um voo dentro do próprio país.”
O centro de detenção do ICE – “Fui levado para a unidade da ICE em Burlington e de lá para as instalações do Ice em Plymouth. Foi ali que a realidade finalmente caiu sobre mim. Durante os 11 dias, encontrei muitos pais de família, trabalhadores e pessoas assustadas com o futuro. Cada um carregava sua própria história. O que mais me marcou foi perceber o sofrimento das famílias e a incerteza em relação ao amanhã.
A detenção me ensinou uma das maiores lições da minha vida. Quando perdemos a liberdade, percebemos rapidamente que existem coisas que dinheiro nenhum compra. O abraço da família, a conversa com um amigo, a possibilidade de trabalhar e voltar para casa deixam de ser algo comum e passam a ser verdadeiros privilégios.”
O apoio – “Recebi dezenas de cartas e centenas de mensagens de apoio. Minha esposa demonstrou uma força extraordinária. Minha mãe, minhas irmãs, meus familiares e meus amigos, agradeço a mobilização das lideranças comunitárias que foram fundamentais.
Também sou profundamente grato à equipe da Gardini Law — Dr. Ludo Gardini e o Dr. Dúrcio e toda a equipe —, que assumiu minha defesa com rapidez e profissionalismo. O juiz fixou uma fiança de US$ 1.500 e determinou minha liberação. Quero registrar um agradecimento especial ao advogado Dúrcio, cuja sustentação oral foi extremamente técnica.
A Justiça seguirá seu curso – “Como cristão, acredito que Deus nunca nos abandona. Minha fé foi colocada à prova dentro daquele centro de detenção, mas também foi fortalecida. Hoje respondo ao meu processo em liberdade, confiante de que a Justiça seguirá seu curso.
Acima de tudo, o maior sustentáculo foi a fé. Foram as orações da minha família, dos amigos, das igrejas e de milhares de pessoas que me deram forças. A todos que oraram por mim, enviaram mensagens ou ajudaram minha família, fica o meu mais sincero agradecimento. Jamais esquecerei esse gesto de amor. Que Deus abençoe cada um de vocês.”
O que aprendi e gostaria de compartilhar – “Depois de viver essa experiência, também gostaria de deixar algumas orientações que aprendi na prática. Não são conselhos jurídicos, mas lições de alguém que passou 11 dias dentro de um centro de detenção da ICE.
A primeira delas é: nunca concentre todas as informações importantes apenas com você. Se possível, deixe uma pessoa de absoluta confiança — sua esposa, um familiar, um sócio ou alguém muito próximo — com acesso às informações essenciais da sua vida. Quando uma pessoa é detida, ela perde imediatamente o acesso ao celular e, muitas vezes, fica completamente incomunicável.
Também considero muito importante que alguém de confiança tenha acesso às contas bancárias, principalmente às contas empresariais. Durante minha permanência no centro de detenção, ouvi relatos de empresários cujas empresas praticamente pararam porque somente eles tinham acesso às movimentações financeiras. Em alguns casos, a esposa ou um sócio não conseguiam pagar contas, funcionários ou compromissos da empresa.
Escutei relatos de outros detidos. Na maioria dos casos, as prisões estavam relacionadas a dirigir sob efeito de álcool, denúncias de violência doméstica ou a pessoas que compareceram ao tribunal por qualquer motivo — desde uma infração de trânsito até uma disputa judicial — e acabaram sendo detidas por agentes do ICE.
Outra lição importante é memorizar pelo menos um número de telefone de um familiar ou de alguém de extrema confiança. Dentro da detenção, esse simples detalhe pode fazer toda a diferença. Da mesma forma, manter documentos organizados e garantir que uma pessoa de confiança saiba onde encontrá-los pode facilitar muito a comunicação com advogados e familiares.
Também recomendo que haja um planejamento prévio para situações inesperadas. Um segundo cartão bancário autorizado para alguém de confiança, acesso aos principais e-mails, documentos importantes e informações básicas podem evitar enormes dificuldades caso você fique impossibilitado de administrar sua própria vida por algum período.
O caso de Alex Colombini ilustra uma realidade cada vez mais comum nos aeroportos americanos: imigrantes com processos em andamento, documentação de trabalho e anos de residência no país estão sendo detidos durante viagens domésticas. Libertado sob fiança, ele agora acompanha o desenrolar de seu processo pela via legal, enquanto a intensificação das operações da ICE continua gerando insegurança em comunidades imigrantes em todo o país.


