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Há uma palavra que políticos americanos usam quando estão no poder: responsabilidade**. Há outra que aparece quando deixam de estar no poder: soberania. Nesta segunda-feira, o debate sobre inteligência artificial nos EUA coube, de certa forma, entre as duas.
Mike Johnson, presidente da Câmara, advertiu que uma sessão de emergência do Congresso para conter a IA poderia entregar a corrida tecnológica à China. JD Vance chamou de “cavalo de Troia” o movimento de grandes laboratórios que defendem maior regulação pelo governo. Donald Trump falou em conspiração. No dia seguinte, Pequim classificou o alarme ocidental como fearmongering — exploração do medo.
O mais curioso foi observar quem pediu cautela neste episódio: Dario Amodei, Sam Altman, Elon Musk e Demis Hassabis. Não são o Partido Democrata. São executivos e empresários de empresas que já gastaram bilhões de dólares para treinar os modelos mais avançados e que, naturalmente, têm interesses econômicos na definição do ritmo da próxima etapa da corrida.
Johnson, republicano, pediu calma. Hakeem Jeffries, democrata, defendeu “ação decisiva”. A divisão, portanto, não cabe perfeitamente no mapa partidário. A questão mais interessante é outra: quem quer desacelerar a corrida tecnológica americana — e quem pode se beneficiar disso?
Chamar isso de conspiração é preguiça. Tratar cada avanço tecnológico como prenúncio da extinção da espécie também é preguiça intelectual.
Regra que só vale para o adversário não é regra
Os Estados Unidos ainda ocupam a liderança em boa parte da inovação de ponta em inteligência artificial — mas a distância para a China não é uma garantia perpétua. No dia em que o primeiro lugar deixar de ser americano, parte dessa retórica perderá utilidade. O novo líder não herdará o sermão. Herdará a vantagem.
A história tecnológica oferece exemplos suficientes de como regras, patentes e padrões podem servir tanto à segurança quanto à preservação de posições conquistadas. Quem está na frente tende a defender regras; quem está atrás tende a procurar espaço para alcançá-lo.
É preciso, portanto, separar duas coisas: regular riscos reais e regular a velocidade da concorrência.
O episódio de Karl Dönitz em Nuremberg ilustra um princípio jurídico conhecido como tu quoque (“vocês também fizeram”): a dificuldade de condenar alguém por determinada conduta quando o próprio acusador praticou conduta semelhante. Dönitz foi acusado pela guerra submarina sem restrições; a questão foi tratada pelo tribunal levando em conta também práticas das forças navais aliadas. A lição não é que toda conduta semelhante seja legítima. É que a aplicação seletiva de uma regra destrói sua autoridade moral e política.
Na inteligência artificial, existe um interesse que não coincide necessariamente com o cartaz de “salvar a humanidade”. Não é preciso afirmar que democratas, republicanos ou empresas americanas estejam trabalhando para Pequim. Basta observar os incentivos.
Treinar um modelo de fronteira custa bilhões. Quem já investiu uma fortuna para chegar ao topo pode ter razões econômicas para preferir uma corrida mais lenta. Uma regulamentação complexa pode ser absorvida por uma empresa gigantesca, mas representar uma barreira quase intransponível para uma concorrente menor.
O problema aparece quando se pretende transformar essa preferência empresarial em política pública de alcance geral.
Uma pausa coordenada em São Francisco, Washington ou Nova York não obriga a China a fazer o mesmo. Pequim pode continuar investindo, publicando modelos, registrando patentes e tratando a inteligência artificial como prioridade estratégica de Estado.
É nesse ponto que a discussão deixa de ser apenas tecnológica e passa a ser geopolítica.
Exigir transparência de empresas americanas é legítimo. Cobrar padrões de segurança também. Mas exigir que o laboratório sujeito à fiscalização pública revele seus métodos enquanto concorrentes estrangeiros operam sob regras diferentes pode produzir um resultado paradoxal: mais transparência para quem já está exposto e mais liberdade para quem não está.
O alarmismo também precisa ser separado da evidência. Dizer que a inteligência artificial poderá representar riscos graves é uma hipótese que merece estudo. Dizer que a humanidade será exterminada em determinada década é outra coisa. Hipótese não é destino.
O teste deveria ser concreto: uso de IA para fraude em massa, manipulação de sistemas críticos, desenvolvimento de armas, ataques contra infraestrutura, decisões autônomas em áreas sensíveis. Esses riscos podem — e devem — ser regulados.
Pesquisa, porém, não deveria ser interrompida simplesmente porque um pesquisador passou uma noite em claro.
Uma parte da retórica progressista americana — e de quem a reproduz fora dos Estados Unidos — prefere, às vezes, o sermão ao mapa. Fala em nome da humanidade e propõe regras que podem ser aplicadas apenas ao ecossistema americano. Fala em risco para a espécie e ignora que um risco verdadeiramente global não escolhe passaporte.
O efeito prático de uma regra unilateral pode beneficiar justamente o concorrente que não a adota. Isso não exige conspiração. Exige apenas que se observe quem fica limitado e quem permanece livre.
Vance acertou ao levantar a possibilidade de interesses escondidos por trás de determinadas propostas de regulação, mas exagerou ao transformar a questão em uma conspiração. Trump percebeu a assimetria, mas enfraqueceu o argumento ao recorrer à mesma palavra.
Johnson foi mais sóbrio: o Congresso precisa discutir salvaguardas sem transformar cautela em moratória e sem entregar, por decisão unilateral, uma vantagem estratégica a outro país.
Nada disso exige fé na máquina. A inteligência artificial não merece missa. Merece o mesmo critério aplicado a qualquer ferramenta potencialmente perigosa.
Também não merece ser desligada porque o dono de uma empresa entrou em pânico, porque seus concorrentes preferem um ritmo mais lento ou porque alguém acredita que uma lei nacional possa resolver um problema global. O criador tem interesses. O sistema não. O criador vota. O sistema não.
A frase que deveria sobrar desta semana é curta:
- Salvaguarda apenas no laboratório americano não é segurança mundial.
- Pausa na pesquisa que a China não aceita não é moratória global.
- Transparência exigida apenas de quem já está exposto não é necessariamente equilíbrio.
- Regra que pesa sobretudo sobre quem lidera pode, paradoxalmente, ajudar quem está tentando alcançá-lo.
Quando a tecnologia que hoje se pretende amarrar deixar de ser predominantemente americana, os mesmos púlpitos talvez descubram a linguagem da exceção. O outro lado então devolverá o “vocês também fizeram”.
E terá um argumento.
Até lá, o Ocidente precisa escolher: restringir usos perigosos sem interromper a pesquisa; estabelecer padrões que possam ser aplicados internacionalmente; ou transformar medo em lei e lei em vantagem para quem não está sujeito a ela.
O primeiro caminho é política. O segundo é teatro. E, na corrida tecnológica, teatro pode custar posição.


