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A ICE prendeu em Massachusetts um brasileiro condenado por homicídio qualificado no Brasil. Maycon Souto Dos Reis, de acordo com a agência ele foi sentenciado a mais de 14 anos de prisão e estava foragido da Justiça brasileira, Maycon acabou sendo detido no tribunal de Westborough depois de uma abordagem por dirigir sem habilitação. O comunicado oficial da agência veio embalado no tom de sempre: aqui está a prova de que estamos caçando assassinos, predadores e membros de gangues que a mídia insiste em chamar de “não criminosos”.
O caso é real. A prisão, legítima. Ninguém em sã consciência defende que um condenado por homicídio circule livremente. Até aí, nenhuma novidade.
O problema começa quando a ICE transforma o caso pontual em argumento de marketing. As manchetes oficiais e as declarações dos dirigentes seguem um roteiro previsível: destacam o criminoso grave — preferencialmente com sangue nas mãos — e deixam pairar no ar a impressão de que esse é o perfil dominante do imigrante irregular nos Estados Unidos. É o velho truque do espantalho: mostra-se o pior exemplar e, por contaminação, todos os demais passam a carregar a mesma suspeita.
A realidade operacional é outra. Enquanto a agência celebra a captura de um assassino brasileiro, agentes à paisana abordam, em aeroportos de dezenas de cidades, pessoas com visto vencido, pedido de ajuste de status em andamento, autorização de trabalho válida, casamento com cidadão americano ou asilo pendente. Nenhuma ordem final de deportação. Nenhum crime. Apenas o status migratório irregular ou em trâmite. Advogados com décadas de prática relatam que a orientação de sempre — “pode viajar se tiver documentos” — virou o contrário: evite o aeroporto se ainda estiver regularizando sua situação.
Há também o custo humano das abordagens. Em Biddeford, Maine, um colombiano de 25 anos, com autorização de trabalho e pedido de asilo, foi morto a tiros por um agente da ICE. Não era o alvo da operação. Em Minneapolis, duas cidadãs americanas — uma delas observadora legal, a outra enfermeiro de UTI — morreram sob fogo federal em operações migratórias. O discurso oficial fala em legítima defesa. As versões locais e as imagens disponíveis apontam para outra direção.
Não se trata de negar que a ICE prende criminosos. Prende. O caso do brasileiro condenado por homicídio é prova disso. Trata-se de recusar a narrativa seletiva que transforma a exceção em regra e usa o criminoso real como álibi para operações que alcançam, de forma rotineira, quem ainda está dentro do processo legal e não possui ordem final de remoção.
Quando a agência só destaca o assassino e silencia sobre o volume de detidos sem ficha criminal e sem sentença de deportação, não está informando. Está fazendo propaganda. E propaganda, quando feita com o aparato do Estado, costuma ser o primeiro passo para a normalização do excesso.


