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O venezuelano Andrés Barco, de 39 anos, ex-combatente do Exército americano condecorado com a Medalha do Coração Púrpura (Purple Heart) após ser ferido por artefato explosivo no Iraque, tornou-se o mais recente caso de veterano não cidadão deportado pelo governo dos Estados Unidos. Barco foi expulso do país na última sexta-feira (14) e entregue às autoridades mexicanas na fronteira de Nogales, no Arizona.
Barco ingressou nas Forças Armadas aos 17 anos, tendo chegado aos EUA ainda criança sob status de asilo. Durante o serviço, completou toda a documentação necessária para a naturalização, mas o processo nunca foi concluído por motivos não esclarecidos. Além da Purple Heart, recebeu a Insígnia de Infantaria de Combate. Em 2008, porém, foi condenado a 15 anos de prisão no Colorado por tentativa de homicídio em um tiroteio que deixou uma jovem de 19 anos ferida na perna. Sofria, segundo relatos, de transtorno de estresse pós-traumático (TEPT).
Organizações estimam que mais de 10 mil veteranos não cidadãos tenham sido deportados durante a administração Trump (2017-2021 e 2025-atual), muitos deles por delitos cometidos após o retorno do serviço militar e associados ao TEPT. A cifra extraoficial consta de carta enviada pela deputada democrata do Arizona, Yassamin Ansari, aos secretários de Defesa (Pete Hegseth), Assuntos de Veteranos (Doug Collins) e Segurança Interna (Christy Noem).“Essas pessoas demonstraram compromisso com nossa nação por meio do serviço militar. A possibilidade de sua expulsão do país que juraram defender levanta sérias questões sobre as obrigações e valores nacionais”, afirma o documento, que solicita dados detalhados sobre o número de veteranos em risco ou já deportados.
Três categorias de veteranos deportados
De acordo com Héctor Barajas, ex-militar deportado e fundador da Casa de Apoio a Veteranos Deportados em Tijuana (México), os casos dividem-se em três grupos principais:
- Residentes legais que cometeram infrações após o serviço e foram deportados;
- Imigrantes sem documentação regular recrutados em períodos de guerra (prática histórica desde a Primeira Guerra Mundial);
- Beneficiários do programa MAVNI (Military Accessions Vital to the National Interest), criado para atrair estrangeiros com habilidades estratégicas (médicos, intérpretes etc.) com promessa de cidadania acelerada.
Lançado em 2008, o MAVNI foi severamente restringido pela administração Trump em 2017, com a imposição de prazos adicionais de seis meses e verificações de segurança ampliadas antes da emissão do certificado de “serviço honroso” – documento essencial para a naturalização.
Em 2020, um juiz federal declarou a medida ilegal, mas centenas de recrutas já haviam sido expostos a processos de deportação. A legislação americana permite naturalização imediata para militares estrangeiros que serviram em períodos de hostilidades declaradas – como a Guerra ao Terror, iniciada em 2001 e ainda em vigor – ou após um ano de serviço honroso em tempos de paz. Na prática, porém, a baixa honrosa não garante a cidadania.
Contribuição histórica
Atualmente, mais de 40 mil cidadãos estrangeiros servem nas Forças Armadas americanas (ativos e reservistas), segundo o Departamento de Defesa. Outros 115 mil já cumpriram serviço no passado, conforme estimativa do Serviço de Pesquisa do Congresso (CRS). “Os latinos estiveram presentes na defesa do país desde a Guerra da Independência até hoje”, afirma Raúl Danny Vargas, veterano da Força Aérea e presidente da American Latino Veterans Association (ALVA). “É preciso visibilizar essas contribuições para rebater a narrativa de que os latinos não amam ou não estão dispostos a defender este país.”
Barajas, que foi deportado em 2004 e novamente em 2009 antes de obter a cidadania americana em 2018 após 14 anos de luta judicial, resume: “Todo veterano deveria ser naturalizado automaticamente ao ingressar no Exército e ter seu serviço reconhecido. A todos eles deve-se apoio.”


