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BOSTON — Boston pode ser uma cidade estatisticamente segura e, ainda assim, fazer seus moradores se sentirem cada vez menos seguros. A aparente contradição está no centro do debate sobre a segurança pública na cidade, onde indicadores de criminalidade convivem com uma percepção crescente de deterioração dos espaços de convivência.
Uma pesquisa divulgada pela Downtown Boston Neighborhood Association mostrou que 56% dos entrevistados se sentem inseguros no centro e no Boston Common, contra 34% no ano anterior. Para 90%, a segurança pública é uma questão urgente.
O principal motivo de preocupação não foi a violência. Drogas e seringas foram citadas por 45% dos entrevistados, seguidas por moradores em situação de rua e pessoas permanecendo nas ruas, com 30%. Violência apareceu com 20%, enquanto scooters e bicicletas elétricas, trânsito e comportamentos erráticos também foram apontados como problemas.
Os números ajudam a explicar uma diferença importante: segurança não é percebida apenas pela possibilidade de ser vítima de um crime grave. Ela também depende da maneira como as pessoas experimentam diariamente o espaço público.
“Posso caminhar tranquilamente aqui?”
“Posso levar meus filhos ao parque?”
“Posso atravessar uma rua sem uma scooter passar perigosamente?”
“Posso entrar no Boston Common sem encontrar consumo de drogas ou seringas?”
São perguntas que dificilmente aparecem nas estatísticas tradicionais de criminalidade, mas influenciam diretamente a decisão de permanecer, circular ou frequentar determinadas áreas.
A presença ostensiva de drogas, seringas descartadas, comportamentos imprevisíveis, desrespeito às regras de trânsito e ocupação prolongada de áreas públicas pode produzir a percepção de que as normas elementares de convivência estão deixando de ser observadas.
Para parte dos moradores, alguns desses comportamentos também são interpretados como sinais de que pessoas ou grupos ainda não incorporaram plenamente as regras de convivência da sociedade local. Essa percepção existe, mas não permite atribuir tais condutas a uma origem específica ou estabelecer uma relação automática com grupos sociais que resistem a integração cultural.
A prefeita Michelle Wu sustenta que Boston permanece entre as grandes cidades mais seguras dos Estados Unidos, destacando os indicadores de crimes violentos. Os dados da pesquisa, porém, mostram que a percepção de segurança envolve uma dimensão que as estatísticas criminais não conseguem medir sozinhas.
A questão, portanto, não é apenas quantos crimes acontecem. É também se o cidadão sente que o espaço público pertence a todos — e que as regras que permitem essa convivência continuam sendo respeitadas.
Como a própria Wu afirmou: “Uma cidade que tem medo não é uma cidade segura”. Mas a prefeita deveria saber que uma cidade não precisa se tornar violenta para deixar de parecer uma cidade segura.


