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Brasília, 18 de junho de 2026 — Na sessão da Segunda Turma do Supremo Tribunal Federal realizada na terça-feira, 16 de junho de 2026, o ministro André Mendonça, relator da Operação Compliance Zero, protagonizou um dos momentos mais duros e simbólicos dos últimos anos no tribunal. Ao defender a manutenção das prisões preventivas de Henrique Moura Vorcaro (pai do ex-banqueiro Daniel Vorcaro) e Felipe Cançado Vorcaro (primo), Mendonça enfrentou diretamente as críticas do decano Gilmar Mendes, que comparou a condução do caso a práticas da Operação Lava Jato.
Por maioria (3 a 1), a Turma referendou as decisões de Mendonça. Votaram com ele os ministros Luiz Fux e Kassio Nunes Marques. Gilmar Mendes divergiu, propondo a substituição das preventivas por medidas alternativas, como prisão domiciliar com tornozeleira eletrônica. O ministro Dias Toffoli se declarou impedido.
O embate direto
Gilmar Mendes questionou a necessidade das prisões, sugerindo que elas poderiam servir para pressionar delações, e criticou o que viu como excessos. Mendonça, em resposta firme, relembrou diálogo anterior com o decano — ainda antes de sua posse no STF — no qual Gilmar teria afirmado que “para ser ministro do Supremo é preciso ter coragem”.
Foi então que Mendonça disparou a frase que viralizou:
“Eu não tenho medo da morte, quanto mais de ser ministro de um tribunal. Não tenho medo de combater o crime aplicando a lei. Não tenho medo de absolver quem é inocente. Não ajo por pressões de mídia e nem busco a mídia.”
“Eu não tenho medo da morte”: André Mendonça rebate Gilmar Mendes
Em seu voto sobre a prisão do pai de Daniel Vorcaro, o ministro André Mendonça criticou a posição de Gilmar Mendes.
O decano da Corte havia dito que a postura de Mendonça parecia a da Operação Lava Jato, que… pic.twitter.com/nOJ1EJe0P4
— Brasil Paralelo (@brasilparalelo) June 17, 2026
O relator detalhou os contornos do esquema: não se tratava de mero crime de colarinho branco, mas de uma estrutura com “contornos de máfia”, envolvendo violência, fuzis, metralhadoras, armas raspadas e infiltração no sistema policial. Ele citou tentativas de “delação seletiva” por parte da defesa e revelou ter recebido ameaças de morte, inclusive no condomínio onde reside. Mendonça lembrou ainda que levou quatro anos na Corte para decretar a primeira prisão, demonstrando cautela.
O episódio transcende o caso concreto do Banco Master. Ele expõe, de forma crua, as clivagens internas do STF em processos de grande repercussão — divisões que vão muito além de interpretações jurídicas e tocam na própria percepção sobre o papel da Corte na contenção de esquemas que envolveram, segundo as investigações da Polícia Federal, fraudes bilionárias, lavagem de dinheiro e infiltração em estruturas públicas.
De um lado, vozes que priorizam cautelas extremas e alternativas à prisão, frequentemente associadas a uma leitura mais flexível das medidas cautelares. De outro, uma postura que insiste na aplicação rigorosa da lei quando há indícios de risco à investigação, obstrução e continuidade delitiva — exatamente o que Mendonça vem sustentando como relator.
Essa tensão não é nova. O Supremo tem oscilado entre posições que, em casos sensíveis, geram a percepção de leniência com certos poderes e rigor seletivo com outros. No Caso Master, as apurações da PF já apontaram conexões profundas do esquema com esferas de influência no sistema financeiro, órgãos reguladores e, de forma incômoda, no próprio Judiciário de alto nível. O banco não operava num vácuo: as investigações revelaram uma rede que se beneficiava de acessos privilegiados, contratos questionáveis e proteções que só se explicam pela proximidade com centros de poder.
André Mendonça surge, nesse contexto, como uma voz dissonante — aquela que, ao insistir na preservação das investigações e na manutenção de medidas cautelares justificadas, sinaliza uma tentativa de limpar áreas contaminadas da República. Sem alarde retórico, mas com firmeza institucional, ele aplica a lei onde outros veem apenas “excesso”. Para quem acompanha os descaminhos da Corte nos últimos anos, fica subentendido: o “poder contaminado” que precisa de expurgo não é abstrato. É aquele que, por ação ou omissão, permitiu que um esquema mafioso se enraizasse nos alicerces do Estado brasileiro.
O momento é revelador. Enquanto parte da Corte parece ainda refém de corporativismos e cautelas políticas, Mendonça representa um contraponto: o juiz que não se intimida. Em tempos de descrédito institucional, gestos assim — raros e corajosos — funcionam como oxigênio para quem ainda acredita que a Justiça pode, sim, cumprir seu papel sem medo.
Referencias:
– Site oficial do STF (notícias sobre o julgamento de 16/06/2026).
– Migalhas, JOTA, Gazeta do Povo, G1 e Poder360 (reportagens sobre o embate).
– Brasil Paralelo (cobertura detalhada do voto de Mendonça).
– Apuração da Polícia Federal na Operação Compliance Zero (fases públicas).


