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Na madrugada de 12 de outubro de 2026, agentes do Homeland Security Investigations (HSI), órgão investigativo ligado ao Departamento de Segurança Interna dos Estados Unidos, cumpriram um mandado judicial de busca na residência da deputada democrata Ilhan Omar, em Washington. A operação faz parte de uma investigação criminal relacionada a possíveis irregularidades em documentos migratórios antigos. Segundo informações publicadas pelo New York Post em 19 de outubro, investigadores também estariam examinando evidências de DNA para apurar a alegação de que Omar teria se casado, em 2009, com Ahmed Nur Said Elmi, supostamente seu irmão biológico, para facilitar sua imigração.
A acusação é antiga, mas ainda não foi comprovada publicamente. Omar nega qualquer irregularidade e afirma que a investigação tem motivação política. A busca ocorreu poucas semanas antes das eleições legislativas de novembro, circunstância que também levantou questionamentos sobre o uso de instrumentos de investigação federal em um ambiente eleitoral polarizado.
A apuração deve ser julgada pelas provas, não pelas preferências políticas de quem a conduz ou de quem está sob investigação. Se houver fraude, caberá às autoridades demonstrá-la e aos tribunais decidir sobre as responsabilidades. Se não houver provas suficientes, as acusações não poderão ser tratadas como fatos consumados.
O episódio, contudo, oferece uma oportunidade para discutir um fenômeno mais amplo da política americana: a ascensão de uma esquerda que, em parte, reúne lideranças de origem imigrante e defende uma transformação profunda das estruturas econômicas, sociais e institucionais do país.
Nascida na Somália, Omar chegou aos Estados Unidos em 1995, após fugir da guerra civil com a família. Naturalizada americana em 2000, foi eleita para a Câmara dos Representantes em 2018 e tornou-se uma das vozes mais conhecidas da ala progressista do Partido Democrata. Suas críticas à política externa americana, ao apoio a Israel e às instituições de segurança são frequentemente acompanhadas de posições contrárias ao capitalismo e favoráveis a mudanças estruturais na sociedade.
Ela não está sozinha. Rashida Tlaib, filha de imigrantes palestinos, e Pramila Jayapal, nascida na Índia e naturalizada americana, também representam correntes socialistas radical que questionam aspectos centrais da organização política, social e econômica dos Estados Unidos. Em Nova York, Zohran Mamdani, nascido em Uganda e criado nos Estados Unidos desde a infância, tornou-se uma das principais expressões do socialismo americano, com propostas de intervenção estatal na economia, críticas ao modelo capitalista e reinterpretação da história americana.
Essas posições são legítimas dentro do debate democrático. O problema começa quando a crítica deixa de apresentar alternativas institucionais viáveis e passa a tratar as próprias estruturas que garantem a liberdade política como obstáculos a serem deslegitimados indiscriminadamente.
Uma democracia liberal não exige que seus cidadãos adotem uma identidade cultural uniforme, tampouco condiciona direitos políticos à concordância com a política externa ou com o modelo econômico vigente. Exige, porém, o respeito às regras constitucionais, à igualdade perante a lei e aos mecanismos que permitem a alternância de poder. A crítica ao sistema é um direito; a tentativa de contornar suas regras, quando comprovada, é outra questão.
É nesse terreno que a esquerda radical deve ser cobrada com o mesmo rigor aplicado aos adversários políticos. Não basta denunciar abusos do Estado: é necessário demonstrar que as soluções propostas não concentrarão poder excessivo, enfraquecerão garantias individuais ou substituirão uma forma de intolerância por outra. Da mesma maneira, não basta invocar a defesa dos imigrantes para afastar questionamentos legítimos sobre o cumprimento da lei.
O debate também ultrapassa as fronteiras americanas. Na França, manifestações contra o custo de vida e as condições das escolas terminaram, em outubro, com confrontos, incêndios e saques em diferentes cidades. Na Itália, episódios semelhantes de violência acompanharam protestos contra a carestia e a precariedade dos serviços públicos. Os acontecimentos alimentaram discussões sobre autoridade, coesão social e capacidade do Estado de preservar a ordem pública.
Seria incorreto, entretanto, atribuir automaticamente esses distúrbios à imigração. A violência em manifestações não demonstra, por si só, o fracasso da integração de comunidades imigrantes, mas é um ponto que não deixa passar despercebido. O debate sobre assimilação cultural, valores compartilhados e normas comuns exige evidências próprias, sem transformar a origem nacional ou étnica em explicação automática para problemas sociais.
A questão central permanece: sociedades abertas conseguem conciliar diversidade cultural e liberdade individual com a preservação de instituições comuns? A resposta não está na exigência de conformidade ideológica, mas na defesa de regras universais, aplicadas igualmente a todos.
No caso de Omar, a investigação deverá esclarecer se houve irregularidades e se existem provas capazes de sustentar uma acusação formal. Até lá, a presunção de inocência precisa ser respeitada. A deputada, por sua vez, deve ser avaliada politicamente por suas propostas, suas declarações e sua atuação pública, não por suspeitas ainda não demonstradas.
O debate mais profundo não é se imigrantes podem criticar o país que os acolheu. Podem, e essa liberdade constitui uma das forças da democracia americana. A questão é saber se uma corrente política que pretende transformar radicalmente a sociedade oferece soluções compatíveis com as liberdades e as garantias que tornam essa disputa possível — e se aceita submeter seus próprios integrantes às mesmas exigências de responsabilidade que cobra de seus adversários.


