
Boston, 19 de novembro de 2025
Enquanto as ruas de Charlotte, na Carolina do Norte, ainda lembram os protestos contra as recentes operações do Serviço de Imigração e Controle de Alfândegas (ICE), e Chicago lida com as consequências de detenções em massa que afetaram milhares de famílias, a região de New England — em particular Massachusetts — mantém uma calmaria relativa. Em um ano marcado pela escalada das políticas de deportação da administração Trump, com mais de 59 mil detenções registradas nacionalmente até setembro, o Nordeste parece um oásis improvável. Mas por trás dessa aparente tranquilidade, especialistas apontam para um cálculo frio: o alto custo político, operacional e financeiro de ações em territórios hostis como os estados azuis (Democratas). A operação “Patriot 2.0”, lançada em setembro, ilustra o contraste gritante. Em Massachusetts, o ICE reportou a prisão de cerca de 1.500 imigrantes ao longo do mês, a maioria sem histórico criminal.
No entanto, essas ações foram dispersas — focadas em alvos específicos em Boston e arredores, como estacionamentos de lojas e tribunais —, sem os bloqueios de bairros inteiros vistos em outros estados. Em comparação, a “Charlotte’s Web”, na Carolina do Norte, deteve mais de 130 pessoas em dois dias, incluindo trabalhadores em postos de gasolina e igrejas, gerando caos e confrontos com a polícia local. Já em Illinois, a “Midway Blitz” de outubro resultou em 614 detenções, com 97% sem antecedentes criminais graves, custando ao contribuinte milhões em logística e litígios subsequentes.
Por que, então, New England escapa de ser o próximo epicentro? A resposta reside em uma tríade de custos que tornam as operações aqui desproporcionalmente onerosas. Politicamente, Massachusetts e vizinhos como Rhode Island e Connecticut são bastiões democratas, onde raids em massa poderiam inflamar protestos em universidades de prestígio como Harvard e MIT, transformando uma detenção rotineira em um espetáculo midiático global, qualquer ação em Boston vira manchete internacional em horas, energizando a oposição em estados decisivos.
Em estados vermelhos (Republicanos) ou roxos (pêndulos), como a Geórgia ou Nebraska, a cooperação local — via acordos 287(g) que permitem que polícias estaduais auxiliem o ICE — reduz o risco de backlash, permitindo detenções eficientes sem o espetáculo de confrontos.
Operacionalmente, a resistência é palpável. Massachusetts, declarada “estado santuário” desde 2017, proíbe suas forças policiais de questionar o status imigratório ou deter pessoas exclusivamente para o ICE, mesmo que tenham cometidos delitos, a menos que haja mandado judicial. Isso força o agência federal a operar sozinha, demandando mais agentes, veículos e horas extras. Um relatório do American Immigration Council estima que uma deportação em massa de 1 milhão de pessoas custaria US$ 88 bilhões anuais em logística geral, mas em cidades santuário como Boston, o custo por detenção pode dobrar devido à necessidade de operações autônomas e à evasão facilitada por redes comunitárias de alerta.
Em contraste, na Carolina do Norte, onde prefeituras cooperam, o ICE alcançou 1.400 prisões em uma única operação em outubro, com eficiência que evitaria os US$ 10-15 mil por detenção extra em Massachusetts, segundo cálculos internos vazados do Departamento de Segurança Interna (DHS).
Financeiramente, o quadro é ainda mais desequilibrado. O Congresso aprovou US$ 29,9 bilhões para o ICE em 2025 — triplicando seu orçamento anual —, com foco em expansão de detenção privada e contratações de 10 mil agentes.
No entanto, esses recursos são direcionados primeiro para “frutos maduros”: estados cooperativos como Flórida e Texas, onde o custo por deportação fica em torno de US$ 10 mil, contra US$ 20-30 mil em blue states resistentes, devido a litígios judiciais e horas de processamento prolongadas.
Um estudo do Baker Institute projeta que, sobre quatro anos, o pacote de US$ 175 bilhões para imigração priorizará o Sul e Meio-Oeste, adiando ações no Nordeste até que o orçamento se estabilize — possivelmente 2026 ou depois.
Setores econômicos locais, como a pesca em New Bedford ou a construção em Cape Cod, que dependem de mão de obra imigrante, exercem pressão sutil sobre republicanos moderados em New Hampshire e Maine, reforçando o adiamento. Essa estratégia de priorização não é coincidência, mas uma tática de “guerra assimétrica”, como descreve um ex-oficial do DHS em entrevista à NPR.
Enquanto o ICE acelera em áreas de baixa resistência — onde uma operação rende centenas de detenções por dia —, New England permanece na fila, com ações isoladas como as 40 prisões em uma operação de três dias na região em setembro.
Educadores em Connecticut e Massachusetts já se preparam para o pior, com treinamentos em escolas para lidar com possíveis interrupções, mas o silêncio atual sugere que o vendaval ainda pode ser postergado.
No fim das contas, essa pausa estratégica expõe as fraturas do sistema: uma lei federal aplicada de forma seletiva, onde o custo não é só em dólares, mas em equidade. Nem todos são capazes de conviver com a realidade que se descortina diante delas — famílias separadas não por atos criminosos, mas por linhas invisíveis na fronteira —, mas não vamos pecar pela omissão, reconhecendo que a aplicação da lei, por mais dura que pareça, não pode se curvar ao privilégio emocional de quem tem mais dependentes ou histórias comoventes, sob risco de transformar justiça em leilão de lágrimas.
“Quando o critério para aplicar a lei deixa de ser ‘você violou objetivamente a norma?’ e passa a ser ‘quantos filhos você tem, quantas lágrimas vai gerar, quantas pessoas dependem de você?’, a lei deixa de ser punitiva e igualitária para se transformar num balcão de negociação emocional: quem chora mais alto, quem tem a história mais triste ou quem mobiliza mais câmeras paga menos ou não paga nada. Nesse momento, a justiça morre e nasce o privilégio sentimental”, Junot.
Link de Referência para a Afirmação sobre Custos de Deportação:
- Link principal e mais abrangente (relatório do AIC de junho de 2025, que discute os impactos de políticas santuárias na composição e custo de deportações):
Mass Deportation – American Immigration Council. - Link complementar do MPI (outubro de 2025, destacando o “patchwork system” de enforcement entre estados vermelhos e azuis, que afeta eficiência operacional):
A New Era of Immigration Enforcement Unfolds in the U.S. Interior and at the Border under Trump 2.0 – Migration Policy Institute.


