Por: Eliana Pereira Ignacio
Olá, meus caros leitores!
Na semana passada, refletimos sobre uma realidade que muitas vezes passa despercebida: nem toda pessoa agradável está em paz. Hoje, gostaria de convidá-los a avançar um pouco mais nessa reflexão, olhando para uma necessidade profundamente humana: o desejo de pertencer.
Todos nós, em algum momento, buscamos um lugar onde possamos ser acolhidos, compreendidos e reconhecidos. Mas será que, nessa busca, não acabamos algumas vezes deixando de lado aquilo que realmente somos? É sobre essa delicada diferença entre ser aceito e sentir-se verdadeiramente pertencente que convido vocês a refletirem comigo nesta semana.
Há pessoas que passam a vida inteira tentando encontrar um lugar onde possam se sentir parte de alguma coisa. Procuram esse lugar na família, nos relacionamentos, nas amizades, no trabalho e até mesmo na aprovação de pessoas que mal conhecem. E, nessa busca, algo curioso pode acontecer: quanto mais tentam pertencer, mais se afastam de si mesmas.
Aprendem a concordar quando gostariam de discordar. A sorrir quando estão desconfortáveis. A esconder opiniões, sentimentos e necessidades para não correr o risco de serem rejeitadas. Aos poucos, vão se tornando especialistas em corresponder às expectativas dos outros, mas quase desconhecidas de si mesmas.
E aqui surge uma questão que merece nossa atenção: de que adianta sermos aceitos em tantos lugares se, para permanecer neles, precisamos abandonar partes importantes de quem somos?
Na psicologia humanista, especialmente na Abordagem Centrada na Pessoa, desenvolvida por Carl Rogers, encontramos uma compreensão profundamente significativa sobre essa experiência. Rogers reconheceu que o ser humano possui uma necessidade importante de consideração positiva, isto é, de ser acolhido, valorizado e reconhecido nas relações.
Entretanto, quando aprendemos que só merecemos amor e aceitação se correspondermos a determinadas expectativas, podemos começar a negar nossos próprios sentimentos e experiências. É como se, silenciosamente, construíssemos uma versão de nós mesmos que fosse mais fácil de amar. Mas será que essa versão consegue experimentar um verdadeiro sentimento de pertencimento?
Pertencer não significa apenas estar presente. Podemos estar cercados de pessoas, participar de reuniões familiares, frequentar ambientes sociais e, ainda assim, experimentar uma profunda sensação de não ter lugar. Porque estar entre pessoas não é necessariamente sentir-se reconhecido por elas.
O verdadeiro pertencimento começa quando encontramos relações nas quais não precisamos representar o tempo inteiro. Relações em que podemos expressar nossas diferenças sem que isso signifique perder o direito de ser amados ou respeitados.
Isso não significa que todos precisam concordar conosco, nem que devemos esperar aceitação incondicional em qualquer ambiente. Significa compreender que relações saudáveis permitem diferenças, respeitam limites e não exigem a anulação da nossa identidade como condição para permanecermos nelas.
Talvez uma das experiências mais dolorosas da vida seja perceber que fomos aceitos durante muito tempo, mas somente enquanto correspondíamos ao que esperavam de nós. E talvez uma das experiências mais libertadoras seja descobrir que podemos ser diferentes sem sermos menos dignos de amor.
Há, porém, uma dimensão do pertencimento sobre a qual pouco refletimos: a capacidade de pertencermos a nós mesmos.
Como encontrar nosso lugar no mundo quando estamos constantemente em conflito com aquilo que sentimos? Como construir relações autênticas se temos medo de reconhecer nossas próprias necessidades?
Pertencer a si mesmo é aprender a olhar para a própria história sem precisar rejeitar tudo aquilo que não saiu como esperávamos. É reconhecer nossas fragilidades sem transformá-las em identidade. É compreender que nossas experiências fazem parte de nós, mas não determinam todo o nosso valor.
Na perspectiva humanista, esse movimento de autoconhecimento e aceitação favorece uma existência mais congruente, na qual aquilo que vivemos internamente encontra maior correspondência com a maneira como nos expressamos no mundo.
O verdadeiro pertencimento não acontece quando encontramos um lugar onde todos nos aceitam, mas quando descobrimos que, para sermos amados, não precisamos deixar de ser quem somos.
Eliana Pereira Ignacio é Psicóloga, formada pela PUC – Pontifícia Universidade Católica – com ênfase em Intervenções Psicossociais e Psicoterapêuticas no Campo da Saúde e na Área Jurídica; especializada em Dependência Química pela UNIFESP Escola Paulista de Medicina em São Paulo Unidade de Pesquisa em Álcool e Drogas, entre outras quali cações. Mora em Massachusetts e dá aula na Dardah University. Para interagir com Eliana envie um e-mail para epignacio_vo@hotmail.com ou info@jornaldossportsusa.com


