JSNEWS
A ofensiva migratória do presidente Donald Trump, que inclui deportações em massa, operações ostensivas do Serviço de Imigração e Alfândega (ICE) e restrições a vistos e autorizações de trabalho, começa a produzir efeitos que ultrapassam a comunidade imigrante. A escassez de mão de obra, a pressão sobre empresas e serviços e a reação de eleitores transformaram a política migratória em um possível problema eleitoral para os republicanos nas eleições legislativas de 3 de novembro.
Apresentada por Trump como uma das principais promessas de seu governo, a campanha de deportações enfrenta resistência crescente. Pesquisas nacionais indicam insatisfação com os métodos empregados pelas autoridades, inclusive entre setores que defendem maior controle das fronteiras e medidas rigorosas contra imigrantes com antecedentes criminais.
Levantamento Reuters/Ipsos divulgado em setembro mostrou que apenas 36% dos entrevistados aprovavam a condução da política migratória pelo presidente. Pesquisa da NBC News com eleitores latinos indicou que dois terços consideravam excessivas as medidas de fiscalização. Mais de um quarto afirmou conhecer alguém detido ou deportado desde o início do segundo mandato de Trump.
Os efeitos econômicos também preocupam empresários e produtores rurais. No Kansas, representantes do setor pecuário alertaram que operações do ICE estão dificultando a contratação e a permanência de trabalhadores, comprometendo a produção de carne e pressionando os preços. Aproximadamente dois terços dos trabalhadores agrícolas americanos são imigrantes sem cidadania, segundo o texto do Guardian.
Restaurantes e hotéis relatam dificuldades semelhantes. Na Flórida, uma proprietária de hamburgueria afirmou que o movimento caiu 70% em meio ao temor provocado pela presença de agentes migratórios. No setor de saúde, médicos formados no exterior representam quase um quarto dos profissionais americanos e ajudam a suprir carências, especialmente em regiões rurais. A perda de trabalhadores imigrantes também ameaça instituições de assistência a idosos.
As restrições atingem ainda profissionais qualificados. Em outubro, o governo anunciou medidas contra programas de imigração de trabalhadores especializados, incluindo investigações envolvendo universidades e empresas de tecnologia.
O descontentamento começa a repercutir dentro do próprio Partido Republicano. Parlamentares e representantes de setores produtivos manifestaram preocupação com os prejuízos provocados pelas operações, embora alguns tenham posteriormente reafirmado apoio à estratégia presidencial.
A imigração, entretanto, disputa espaço com questões econômicas mais abrangentes. Pesquisas citadas pela emissora australiana SBS apontam inflação, custo de vida e avaliação da liderança presidencial entre as principais preocupações dos americanos. A política migratória pode influenciar o voto tanto diretamente quanto pela percepção de que suas consequências agravam problemas cotidianos.
O resultado de novembro poderá afetar a composição do Congresso e a margem de manobra do governo. Uma eventual reação eleitoral também será observada em outros países, como a Austrália, onde a imigração ocupa lugar central no debate político.


