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A população da China caiu pelo quarto ano consecutivo em 2025, registrando uma redução de 3,39 milhões de habitantes, totalizando 1,405 bilhão de pessoas, segundo dados oficiais do National Bureau of Statistics divulgados nesta segunda-feira. O declínio acelerou em comparação com 2024, agravando uma crise demográfica que já preocupa autoridades em Pequim há anos.
O número de nascimentos despencou para 7,92 milhões em 2025 — o menor patamar em décadas e uma queda de 17% em relação aos 9,54 milhões de 2024. Já o número de óbitos subiu para 11,31 milhões, ante 10,93 milhões no ano anterior. Isso resultou em uma taxa de natalidade recorde de baixa histórica de 5,63 nascimentos por mil habitantes, enquanto a taxa de mortalidade atingiu 8,04 por mil — o nível mais alto desde 1968.
Essa contração populacional, iniciada em 2022, reflete uma combinação de fatores: o legado da antiga política do filho único (vigente até 2015), que alterou profundamente as expectativas familiares; o aumento do custo de vida e da criação de filhos em um contexto de urbanização acelerada (68% da população urbana em 2025); altas taxas de desemprego juvenil; e mudanças culturais, com jovens priorizando carreira, independência e adiando ou evitando casamento e maternidade. O número de casamentos despencou 20% em 2024 (para 6,1 milhões de casais), o maior tombo já registrado, servindo como indicador antecedente de quedas na natalidade.
Implicações da diminuição populacional
A redução acelerada traz consequências graves para a economia e a sociedade chinesa:
- Encolhimento da força de trabalho: Centenas de milhões de pessoas deixarão o mercado de trabalho nas próximas décadas, enquanto a proporção de idosos (acima de 60 anos) já ultrapassa 23%. Isso pressiona o sistema de pensões, já sobrecarregado, e eleva custos com saúde e seguridade social.
- Desaceleração do crescimento econômico: Menos consumidores jovens e uma base produtiva menor dificultam a meta de Pequim de impulsionar o consumo interno e controlar a dívida pública. Há risco de escassez de mão de obra qualificada, aumento de custos trabalhistas e menor dinamismo inovador a longo prazo.
- Envelhecimento acelerado: A China está se tornando uma “sociedade envelhecida” em ritmo mais rápido que muitos países desenvolvidos, o que pode gerar desequilíbrios fiscais e sociais profundos.
Tendência em outras sociedades desenvolvidas
A China não está sozinha nessa trajetória. Países desenvolvidos enfrentam declínio populacional e envelhecimento há décadas:
- Japão lidera o fenômeno, com população em queda desde 2008 (redução anual de cerca de 0,5%) e taxa de fecundidade baixa (cerca de 1,3-1,4). O país já lida com escassez de mão de obra, vilas abandonadas e alta dependência de idosos.
- Coreia do Sul registra a taxa de fecundidade mais baixa do mundo (cerca de 0,7-0,8), com população em declínio desde 2020 e projeções de perda de até 50-60% até o final do século.
- Europa (como Itália, Alemanha e Espanha) e partes da Europa Oriental também veem quedas, com taxas abaixo de 1,5 em muitos casos, levando a envelhecimento rápido e pressão sobre sistemas previdenciários.
A diferença é que a China envelhece antes de enriquecer completamente, com renda per capita ainda inferior à de Japão ou Coreia do Sul quando atingiram estágios semelhantes. Além disso, Pequim resiste a imigração em massa como solução, ao contrário de alguns países europeus ou do Canadá.
O Estado chinês está preocupado?
O governo chinês demonstra alta preocupação e considera a “segurança populacional” uma questão estratégica nacional. Apesar de sucessivas políticas pronatalistas — como a permissão para até três filhos (2021), subsídios em dinheiro para crianças pequenas (incluindo 3.600 yuans anuais por criança), extensão de licença-maternidade, cobertura total de despesas médicas de parto (planejada para 2026, incluindo fertilização in vitro) e até medidas polêmicas como taxação de preservativos —, os resultados continuam decepcionantes. A natalidade não se recuperou de forma sustentável.
Autoridades e especialistas veem o declínio como ameaça ao crescimento econômico de longo prazo, à estabilidade social e às ambições globais da China. Medidas adicionais, como aumento gradual da idade de aposentadoria (de 60 para 63 anos para homens e ajustes para mulheres) e investimentos em automação/robótica, são adotadas para mitigar impactos. No entanto, analistas alertam que, sem reversão significativa da fecundidade (atualmente em torno de 1,0), a população pode cair para menos de 1 bilhão até 2050 e bem abaixo disso no final do século.
Demógrafos preveem possível leve alta temporária de nascimentos em 2026, graças à facilitação do registro de casamentos em qualquer local do país (medida de maio de 2025), mas o consenso é de que o declínio estrutural persistirá. A crise demográfica chinesa é um desafio de proporções históricas, com repercussões que vão além das fronteiras do país.


