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Wellesley (EUA) – Na noite de 24 de abril, a polícia de Wellesley, Massachusetts, entrou na casa da família na rua Edgemoor Avenue e encontrou os corpos de Kai, 7 anos, e Ella, 6 anos. A mãe, Janette MacAusland, 49 anos, acupunturista, foi acusada de duplo homicídio. O caso ainda está no início: a investigação da Polícia Estadual e do Ministério Público de Norfolk County avança sem detalhes definitivos sobre a causa das mortes ou a motivação exata.
MacAusland foi presa em Vermont, onde apareceu perturbada e ferida no pescoço, na casa de parentes. O casal vivia um divórcio contencioso desde outubro de 2025. O pai buscava a guarda das crianças e a casa; Janette também reivindicava. Um guardião ad litem havia sido nomeado apenas seis dias antes. Nesta segunda-feira, 27 de abril, ela teve a primeira audiência para tratar da extradição.
O crime em Wellesley mostra, de forma dolorosa, outro caso que abalou Massachusetts. Em janeiro de 2023, em Duxbury, Lindsay Clancy, 32 anos, estrangulou os três filhos — Cora, 5 anos, Dawson, 3, e Callan, 8 meses — enquanto o marido saiu para buscar comida. Em seguida, tentou tirar a própria vida, sobrevivendo com sequelas graves. Ela admitiu os atos, mas alega psicose puerperal grave. O julgamento está previsto para julho de 2026.

Esses dramas não são exceções isoladas. Nos Estados Unidos, dados consistentes do FBI indicam que pais e mães matam cerca de 450 a 500 crianças por ano — uma a cada dois dias, ano após ano. É uma estatística fria que esconde histórias de desespero, isolamento e sofrimento profundo.
O padrão é marcante e se repete em diferentes países. No primeiro ano de vida, especialmente nos primeiros meses e no neonaticídio (primeiras 24 horas), as mães são as principais autoras — respondem por 50% a 60% dos casos, chegando a 80-90% nos recém-nascidos. A grande maioria envolve mães solo: jovens, em situação de vulnerabilidade, muitas vezes com gravidez negada ou indesejada, sem rede de apoio, sob pressão da pobreza, do estigma e da depressão pós-parto não tratada. O risco para elas é quatro vezes maior do que para mães casadas ou com companheiro.
Depois do primeiro ano, o cenário muda. Os pais e nãos as mães passam a predominar, especialmente em crianças maiores de 6 ou 8 anos. No total, eles respondem por cerca de 55-60% dos filicídios. Os motivos mais frequentes são abuso físico crônico, vingança na separação (“se não são meus, não serão de ninguém”), controle e violência doméstica. Padrastos aparecem como grupo de alto risco.
No Brasil, o quadro guarda semelhanças, mas carrega marcas próprias de desigualdade e subnotificação. Não há estatística nacional tão organizada quanto a do FBI, mas os dados disponíveis mostram que o primeiro ano de vida também é o mais vulnerável, com mães — especialmente mães solo em contexto de pobreza extrema — mais presentes nos neonaticídios e infanticídios precoces. O Código Penal reconhece o infanticídio cometido sob influência do estado puerperal.
Em crianças maiores, os pais e padrastos lideram, muitas vezes em contextos de separação litigiosa ou violência familiar. O Brasil registra milhares de mortes violentas de crianças e adolescentes por ano, e uma parcela significativa ocorre dentro de casa, onde o lar, que deveria proteger, se torna cenário de dor irreparável. A depressão pós-parto atinge até 25% das mães brasileiras — taxa superior à média global —, agravada por falta de apoio, isolamento e dificuldades de acesso a saúde mental.
De um lado e de outro do continente, o que une esses números é a fragilidade humana. Mães e pais que, em momentos de colapso, cruzam uma linha que a maioria nunca imagina. A esmagadora maioria das mães com depressão pós-parto jamais faz mal aos filhos. Mas, quando o desamparo se acumula — sem rede, sem tratamento, sem esperança —, o resultado é tragédia silenciosa.
Enquanto a investigação de Wellesley segue e o julgamento de Clancy se aproxima, os dados lembram que, por trás de cada estatística, há uma criança que não teve chance de crescer. E famílias inteiras que carregam, para sempre, o peso do impensável.


