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Greensboro (Carolina do Norte), 26 de maio de 2026 — Desde o início do segundo mandato de Donald Trump, em janeiro de 2025, uma onda de criminosos que se passam por agentes da Imigração e Fiscalização Aduaneira (ICE) tem aterrorizado comunidades de imigrantes nos Estados Unidos. Eles invadem casas, praticam roubos, agressões e até estupros, aproveitando o medo gerado pela maior operação de deportações em massa da história americana.
Um imigrante mexicano que vive em Greensboro, na Carolina do Norte, ainda dorme com a porta trancada por várias trancas e cercado de imagens religiosas. Na noite de 20 de janeiro de 2025 — o mesmo dia em que Trump tomou posse —, um grupo de homens encapuzados invadiu a casa onde ele morava com outros imigrantes. Um deles gritava “ICE! ICE!” e arrombou a porta do quarto. “Levantei as mãos, mas ele perguntou: ‘Onde está o dinheiro?’. Foi quando percebi que não era a polícia de verdade”, contou a vítima, que preferiu não se identificar por medo.
O grupo armado roubou os moradores, agrediu um deles com a coronha de uma arma — que precisou de mais de dez pontos e grampos na testa — e apontou pistola para um bebê. Até hoje, ninguém foi preso.
Uma investigação da Noticias Telemundo, baseada em registros judiciais, boletins policiais e reportagens, revela um salto preocupante: foram documentados pelo menos 31 casos de falsos agentes do ICE em 2025 — contra uma média de apenas 5,3 incidentes por ano na década anterior. Do total de 84 casos identificados entre 2014 e 2025, quase 40% ocorreram apenas no último ano.
Dos incidentes de 2025, 84% envolveram pessoas que se diziam agentes do ICE. O nível de violência também aumentou: passou de 23% dos casos (média 2014-2024) para 38% no ano passado. Os crimes incluem roubos à mão armada, intimidação, agressões físicas e estupros.
O FBI já havia alertado, em boletim interno de outubro de 2025, que criminosos estavam se aproveitando do alto perfil das operações do ICE na mídia para atacar comunidades vulneráveis. Nem o Departamento de Segurança Interna (DHS) nem o ICE divulgaram estatísticas oficiais sobre o fenômeno.
Medo que paralisa
O terror gerado por esses falsos agentes é agravado pelo fato de muitos imigrantes não denunciarem os crimes. Com receio de serem deportados, vítimas e testemunhas evitam contato com a polícia. “Eles têm medo de que o próprio policial que procurarem chame a imigração”, explica a advogada Nina Cano.
Casos semelhantes se repetiram em vários estados: Pittsburgh, San Diego, Filadélfia, Nova York, Flórida, Texas e Carolina do Sul. Em alguns, os impostores usavam coletes com dizeres como “Security Enforcement Agent”, luzes de polícia nos carros e até linguagem agressiva típica de operações reais.
John Tobon, ex-diretor adjunto de investigações do ICE com 31 anos de carreira, afirma que os crimes se tornaram “muito mais agressivos e violentos” recentemente. “Antes eram fraudes para roubar dinheiro. Agora há violência física e sexual.”
O uso de máscaras e roupas táticas por agentes reais do ICE — justificado pela agência como proteção contra doxxing e ameaças — dificulta ainda mais a distinção entre policiais legítimos e impostores. Congressistas democratas, como a deputada Laura Friedman (Califórnia), cobram que os agentes se identifiquem claramente. Cidades como Filadélfia aprovaram leis exigindo identificação visível, mas a aplicação esbarra em resistências federais.
Especialistas da ACLU e de organizações de defesa de imigrantes alertam que a situação cria um “território desconhecido”. “Nunca tivemos agentes federais mascarados em escala tão grande. Isso abre espaço para que criminosos se passem por eles com credibilidade”, diz Naureen Shah, da ACLU.
O aumento coincide com a grande ofensiva de deportações prometida por Trump, que ampliou o número de agentes do ICE e realizou operações em diversas cidades. O clima de medo generalizado tem feito muitos imigrantes se trancarem em casa, mudarem de emprego ou evitarem sair às ruas.
Para as vítimas, o trauma é duradouro. Um jovem mexicano agredido verbalmente por um falso agente na Carolina do Sul sofreu seu primeiro ataque de pânico e ainda convive com ansiedade e insônia. “Aquele medo ficou dentro de mim”, disse.
Enquanto o governo federal intensifica as ações de imigração, a onda de falsos agentes revela um efeito colateral perigoso: o enfraquecimento da confiança da comunidade imigrante nas autoridades e o aumento da vulnerabilidade dos mais expostos à violência criminosa.
A impunidade ainda é alta. A maioria dos casos não resulta em prisão, e muitas vítimas permanecem em silêncio, temendo retaliações ou deportação.


