JUNOT
Os democratas parecem decididos a transformar o Immigration and Customs Enforcement (ICE) no grande vilão de sua campanha para as eleições de meio de mandato. A estratégia é clara: capitalizar a indignação contra a agenda agressiva de deportações de Donald Trump e pintar a agência como símbolo de autoritarismo.
Mas essa aposta, além de previsível, é arriscada — e pode se revelar um tiro no pé.
Enquanto militantes progressistas e parte da base democrata vibram com discursos inflamados contra o ICE, as pesquisas pintam um quadro bem diferente: para a maioria dos eleitores, incluindo muitos latinos, o que realmente importa é a economia, a inflação e o custo de vida. Imigração aparece como preocupação secundária.
Levantamento da Marquette Law School de maio de 2026 é implacável: inflação e custo de vida lideram com 37%, economia vem em segundo com 19%. Imigração e segurança de fronteiras? Apenas 6%. Republicanos lideram democratas por 19 pontos na questão imigração. Trump, mesmo com aprovação geral baixa, mantém força relativa exatamente nesse terreno.
A polarização transformou o patriotismo em totem tribal. Republicanos exibem orgulho incondicional; democratas e jovens tendem a ser mais críticos. Entre latinos, custo de vida e empregos esmagam imigração como prioridade. Ignorar isso é teimosia política.
Exemplos recentes mostram o abismo entre primárias e eleição geral. Candidatos que martelam o discurso anti-ICE inflamam a base nas primárias, mas correm o risco de parecerem desconectados do eleitorado médio quando chega novembro.
O consultor republicano Mike Madrid foi direto: “Não existe — nem nunca existiu — uma pesquisa mostrando qualquer tema que afete mais a comunidade latina do que a acessibilidade financeira”. Sarah Pierce, do Third Way, complementa: “criticar excessos do ICE é legítimo, mas não pode ser a mensagem principal”.
Os democratas estão diante de um dilema incômodo. Têm razão ao questionar abusos e falta de transparência em operações do ICE. Mas transformar a agência em obsessão central enquanto o bolso do eleitor aperta é uma estratégia que cheira a auto-sabotagem.
Se não conseguirem equilibrar crítica pontual com uma mensagem forte e pragmática de economia, saúde e segurança, podem estar entregando de bandeja aos republicanos o tema onde eles historicamente são mais fortes.
A lição é antiga, mas parece que ainda não foi aprendida: o que emociona a militância nas primárias nem sempre conquista o eleitorado na eleição geral. E, neste momento, o eleitorado quer soluções para contas no fim do mês, não apenas discursos contra o ICE.
Os democratas foram avisados. Resta ver se vão ouvir.


