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Boston, 12 de Agosto de 2026 – A riqueza líquida mediana das famílias de Massachusetts superou US$ 370 mil no ano passado. O número, porém, esconde um abismo: famílias brancas chegam a US$ 549,2 mil, asiáticas a US$ 305 mil, enquanto as negras ficam em apenas US$ 7,8 mil e as hispânicas em US$ 1,2 mil. Quase um terço das famílias negras e 41% das hispânicas têm patrimônio zero ou negativo.
Riqueza líquida é o valor total dos ativos de uma família (casa, dinheiro em conta, investimentos, aposentadoria etc.) menos todas as dívidas (financiamento imobiliário, empréstimos, cartão de crédito). A mediana representa o ponto médio: metade das famílias tem mais do que esse valor e a outra metade tem menos. Diferente da renda mensal, a riqueza líquida mostra a capacidade real de enfrentar imprevistos, comprar um imóvel ou transmitir patrimônio para a próxima geração.
Os dados vêm da Massachusetts Economic Conditions and Household Opportunity Survey (Mass ECHOS), pesquisa inédita do Federal Reserve Bank of Boston divulgada nesta quarta-feira (12). Realizada entre março e dezembro de 2025, a pesquisa ouviu 5.018 famílias a partir de uma amostra aleatória de 32.817 endereços. Parceiros do estudo incluem The Boston Foundation, Barr Foundation, Eastern Bank Foundation e Greater Boston Chamber of Commerce. Mais de um terço dos entrevistados afirmou não ter recursos para cobrir uma despesa emergencial de US$ 400.
Além da raça: o peso da estrutura familiar
O relatório destaca as diferenças raciais, mas analistas e dados nacionais apontam que a forma como a família se organiza — especialmente a presença de dois pais — exerce influência decisiva, e em muitos casos superior, sobre os resultados econômicos.
Segundo o Census Bureau e o Office of Juvenile Justice and Delinquency Prevention, em 2023 apenas 44,6% das crianças negras viviam em lares com dois pais. Entre as brancas, o índice era de 76,3%; entre as hispânicas, 67,4%. Quase metade das crianças negras (49,7%) residia com apenas um dos pais, contra cerca de 20% das brancas.
Estudos do American Enterprise Institute (AEI) e do Institute for Family Studies (IFS) mostram consistentemente que famílias negras formadas por casais casados apresentam renda mediana superior à de mães solo brancas. Dados da American Community Survey de 2024 indicam mediana em torno de US$ 104 mil para famílias negras de casais casados, enquanto mães solo brancas ficam perto de US$ 60 mil.
Pesquisas de Raj Chetty e colaboradores sobre mobilidade intergeracional reforçam o ponto: a proporção de famílias monoparentais em uma região é um dos preditores mais fortes de chances de ascensão econômica — frequentemente mais relevante que a raça isoladamente. Trabalhos do AEI (incluindo análises de Brad Wilcox) apontam ainda que crianças negras criadas em lares intactos têm melhores resultados em pobreza, escolaridade e encarceramento do que crianças brancas criadas por mães solo.
O Mass ECHOS não publicou, nos resumos disponíveis, o cruzamento de patrimônio por estrutura familiar. Caso o fizesse, é provável que confirmasse o padrão observado em escala nacional: a organização da família funciona como mecanismo central de acumulação de riqueza.
Brasileiros nascidos no Brasil: renda e escolaridade acima da média
Em contraste com os números agregados por raça em Massachusetts, os imigrantes nascidos no Brasil apresentam indicadores distintos no plano nacional.
De acordo com o Migration Policy Institute (MPI), com base na American Community Survey de 2024, a mediana de renda familiar dos imigrantes brasileiros nos Estados Unidos ficou em US$ 87.500. O valor supera a mediana de todos os lares imigrantes (US$ 82.400) e a de lares chefiados por nativos americanos (US$ 81.400).
O diferencial educacional é ainda mais expressivo: 48% dos adultos brasileiros imigrantes (25 anos ou mais) possuem diploma de bacharelado ou superior. Entre o conjunto de imigrantes, o índice é de 36%; entre os nascidos nos EUA, 37%. Apenas 10% não concluíram o ensino médio.
A comunidade brasileira concentra-se principalmente na Flórida (23%), Massachusetts (17%) e Califórnia (9%). No estado de Massachusetts, ela forma o maior grupo imigrante, com origem histórica forte em Minas Gerais — especialmente Governador Valadares —, embora ondas mais recentes tenham diversificado a procedência para São Paulo, Goiás, Espírito Santo e estados do Sul.
Os números mostram que escolaridade elevada, alta participação no mercado de trabalho e redes familiares e comunitárias influenciam de forma concreta os resultados econômicos. O recorte exclusivamente racial, embora relevante, não captura toda a complexidade das diferenças observadas.


