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Quase metade das famílias de origem brasileira que vivem na Grande Boston não tem condições de cobrir uma despesa emergencial de US$ 400 sem recorrer a empréstimos ou cartão de crédito. O dado, de 47,6%, faz parte de um levantamento inédito do Federal Reserve Bank de Boston divulgado nesta segunda-feira (17).
O percentual coloca a comunidade brasileira em uma posição intermediária quando comparada a outros grupos da região. Haitianos registram 83,7% de famílias incapazes de arcar com o gasto; porto-riquenhos, 78,2%; dominicanos, 67,9%; e afro-americanos, 68%. Já famílias do Sudeste Asiático apresentam a menor taxa, de 22,5%, enquanto negros nascidos no exterior ficam em 48,9% — número quase idêntico ao dos brasileiros.
A pesquisa, baseada em mais de 5 mil entrevistas realizadas em 2025, é a primeira de abrangência estadual a mapear de forma detalhada o patrimônio, as dívidas e a capacidade de enfrentar imprevistos financeiros em Massachusetts. A Grande Boston — área metropolitana que inclui a capital, subúrbios e partes de New Hampshire, com cerca de 4,5 milhões de habitantes — concentra grande parte das comunidades imigrantes do estado.
Disparidades abismais de patrimônio
Massachusetts é um dos estados mais ricos dos Estados Unidos, mas também um dos mais desiguais. O patrimônio líquido mediano das famílias brancas chega a US$ 549.200. Já as famílias latinas registram apenas US$ 1.200, e as negras, US$ 7.800. As de origem asiática, havaiana ou das ilhas do Pacífico ficam em US$ 305.000.
Mais de um terço de todas as famílias do estado não conseguem cobrir um gasto de US$ 400 — valor que cobre, por exemplo, troca de pneus, consulta de urgência, conserto de máquina de lavar ou reboque de carro. Entre famílias negras e latinas, a proporção sobe para cerca de dois terços.
Para a comunidade brasileira, o índice de 47,6% mostra que quase metade das famílias vive à beira de um colapso financeiro diante de qualquer imprevisto. Muitos brasileiros em Massachusetts trabalham em setores de serviços, construção e cuidados, com salários que dificilmente acompanham o alto custo de moradia e saúde da região.
Casa própria: o principal divisor de águas
Especialistas apontam a propriedade imobiliária como o maior fator por trás das diferenças de patrimônio. Cerca de 70% das famílias brancas em Massachusetts são donas da própria casa, contra 39% das negras e 32% das latinas. Políticas históricas como o redlining (recusa de financiamento em bairros majoritariamente negros ou latinos) deixaram marcas que ainda se refletem nos números atuais.
“É a história proverbial de duas economias”, afirmou Jim Rooney, presidente da Câmara de Comércio da Grande Boston. Nicole Obi, presidente do Black Economic Council of Massachusetts, alerta que um patrimônio mediano de US$ 7.800 entre famílias negras é insuficiente para abrir um negócio ou pagar a faculdade sem endividamento pesado. Quase um terço dessas famílias tem patrimônio zero ou negativo.
James Jennings, professor emérito de planejamento urbano da Universidade Tufts, ressalta que aumentar a taxa de proprietários de imóveis não basta. “Resolver a lacuna racial de riqueza significa também melhorar a qualidade da educação, dos empregos e da saúde”, disse.
Comparações e desafios estruturais
Enquanto a comunidade brasileira aparece em situação relativamente menos crítica que haitianos ou afro-americanos no indicador de emergência de US$ 400, o quadro geral dos latinos no estado permanece alarmante. A riqueza mediana latina de apenas US$ 1.200 reflete barreiras como status migratório, dificuldades linguísticas, predomínio de famílias monoparentais e estagnação salarial diante da inflação.
Nacionalmente, dados da Reserva Federal de 2022 mostravam patrimônio mediano de cerca de US$ 45.000 para famílias negras, US$ 62.000 para latinas, US$ 285.000 para brancas e US$ 536.000 para asiáticas. Em Massachusetts, a distância é ainda mais acentuada.
Perspectivas
O relatório do Fed de Boston destaca fatores associados a maior patrimônio: viver em áreas rurais, ter casa própria e possuir pós-graduação. Famílias urbanas têm patrimônio mediano de US$ 110.000, contra US$ 465.000 das rurais — em parte porque nas cidades há mais inquilinos.
Com o debate sobre custo de vida ganhando força, especialistas veem uma janela para discutir barreiras estruturais. “A negação histórica de riqueza a determinados grupos aparece nos dados atuais, além da discriminação presente”, afirmou Andre Perry, pesquisador sênior do Brookings Institution.
Para a comunidade brasileira da Grande Boston, os números servem de alerta: apesar de ocupar posição intermediária em relação a outras nacionalidades e grupos, quase metade das famílias permanece vulnerável a qualquer despesa imprevista de US$ 400. Em um dos estados mais ricos do país, a capacidade de absorver um gasto inesperado continua sendo um termômetro cruel da desigualdade.


