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RIO DE JANEIRO — A plataforma de comunicação Discord, popular entre gamers, anunciou nesta segunda-feira que suspendeu as transmissões ao vivo (livestreams) no Brasil. A medida ocorre após fortes críticas de que a empresa não protegeu adequadamente crianças e adolescentes e em meio a um caso de suicídio de uma menina de 13 anos.
A decisão da empresa americana seguiu ordem da Autoridade Nacional de Proteção de Dados (ANPD), emitida na semana passada. Em comunicado, a Discord afirmou que está em conversas com as autoridades “para buscar uma solução que permita restabelecer esses recursos para nossos usuários no Brasil” e se disse “comprometida em trabalhar com formuladores de políticas públicas para criar uma experiência online mais segura”.
O caso que desencadeou a crise
Em julho, uma adolescente de 13 anos, do Mato Grosso do Sul, teria sido coagida por outros usuários a se matar durante uma transmissão na plataforma. O episódio colocou a Discord sob forte escrutínio.
Cinco adolescentes foram presos em conexão com a morte, segundo nota do Ministério da Justiça de 4 de agosto. A primeira-dama Rosângela Lula da Silva, conhecida como Janja, pediu no dia 6 de agosto que a plataforma fosse tirada do ar. Em cerimônia em Brasília, ela afirmou não poder aceitar ver “uma menina de 13 anos se autoagredindo ao vivo na internet, no Discord”.
A ANPD justificou a suspensão afirmando que as lives têm sido “repetidamente usadas para facilitar violência, assédio e a incitação à autoagressão e ao suicídio”. Segundo a agência, há evidências robustas de que a empresa não impediu de forma suficiente a exposição de menores a conteúdos que representam “graves violações dos direitos de crianças e adolescentes”, especialmente indução, incitação ou auxílio à violência e ao suicídio.
Resposta da Discord e contexto
A plataforma negou que o caso de julho tenha sido transmitido ao vivo. Em nota à Associated Press, afirmou que grupos ou indivíduos que promovem ou incentivam violência não têm espaço no serviço. Disse ainda que investigou e encerrou um servidor privado onde pessoas envolvidas em atividade criminosa teriam incentivado a autoagressão, antes da morte da adolescente.
A Discord possui mais de 90 milhões de usuários ativos diários no mundo. Nos últimos anos, a plataforma tem sido citada em investigações internacionais envolvendo violência extrema, ameaças de ataques a escolas, material abusivo, grooming de menores e incentivo à autoagressão.
Segundo a Safernet Brasil, organização de defesa dos direitos humanos na internet, o número de denúncias envolvendo a Discord entre janeiro e julho deste ano cresceu 54% em relação ao mesmo período de 2025. O presidente da entidade, Thiago Tavares, classificou o caso da menina de 13 anos como “o trágico desfecho de um padrão que documentamos e denunciamos há anos”.
Críticas à medida e regulação
Nem todos apoiam a suspensão. Thiago Ayub, diretor de tecnologia da Sage Networks, criticou a decisão da ANPD, atribuindo-a em grande parte ao posicionamento de Janja. Para ele, a consequência imediata será a migração de usuários problemáticos para outras plataformas fora do radar, o que reduziria, em vez de aumentar, a proteção de crianças e adolescentes.
O caso se insere em um esforço maior do governo Lula e do Supremo Tribunal Federal para regular o uso da internet por menores. Neste ano, o Brasil aprovou lei que exige que menores de 16 anos vinculem suas contas em redes sociais a um responsável legal e obriga as plataformas a adotar verificação de idade efetiva, além da autodeclaração.
A Discord chegou a adiar uma política de verificação de idade após reações de usuários, mas afirmou que está implementando medidas de “age assurance” para cumprir a legislação brasileira.
O tema é global. Austrália, Canadá, Indonésia e Reino Unido avançam em restrições semelhantes. A Austrália proibiu menores de 16 anos de usar redes sociais no final de 2025, embora pesquisas indiquem que muitos ainda conseguem contornar as barreiras. O governo Trump, por sua vez, tem acusado o Brasil de mirar empresas americanas de tecnologia e citou o tema entre as razões para tarifas sobre produtos brasileiros.
A suspensão das lives na Discord é a resposta mais concreta até agora a um problema que as autoridades brasileiras e organizações de proteção à infância consideram estrutural e de longa data.


