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Somerville (Massachusetts) — Na segunda-feira, 7 de setembro, o Somerville Theatre exibirá Working Girls (1986), de Lizzie Borden, um dos filmes independentes americanos que mais frontalmente trataram a prostituição como uma forma de trabalho. A sessão, marcada para as 19h30, será seguida por um debate promovido pelo Boston Sex Workers and Allies Collective (BSWAC) sobre direitos, estigma e condições de trabalho de profissionais do sexo. A programação oficial do teatro confirma a exibição no Main Theatre (Cinema 1).
A escolha da obra dificilmente poderia ser mais simbólica. A sessão ocorre no Labor Day, feriado americano dedicado ao trabalho, e coloca no centro da discussão uma atividade que, embora cercada de controvérsia moral e jurídica, é tratada pelo filme a partir de uma perspectiva pouco convencional: a do cotidiano profissional.
Após a exibição, Violeta Félix e Mary Carol, integrantes do BSWAC, participarão de uma conversa mediada por Jessica Van Meir. Segundo a divulgação do evento, o debate abordará o legado de Working Girls, sua relação com os atuais movimentos pelos direitos das profissionais do sexo e formas de melhorar as condições de trabalho no setor.
Um dia no bordel, sem glamour nem condenação
Com 93 minutos, Working Girls acompanha Molly (Louise Smith), fotógrafa que trabalha meio período em um bordel de Manhattan. Durante um único dia, ela recebe clientes, convive com outras profissionais e enfrenta as exigências de Lucy (Ellen McElduff), responsável pelo estabelecimento.
O filme não apresenta a prostituição como fantasia romântica nem como tragédia moral. Mostra a rotina: clientes que chegam e saem, telefonemas, troca de lençóis, dinheiro, regras, hierarquia e o esforço das mulheres para preservar alguma separação entre a atividade profissional e a vida privada.
A proposta de Borden foi deliberadamente desmistificadora. Inspirada nas experiências de profissionais do sexo que conheceu durante a produção de Born in Flames (1983), a cineasta construiu uma narrativa em que a prostituição aparece pela lente do trabalho. Instituições que exibiram o filme após sua restauração destacam justamente esse aspecto: a obra examina relações de gênero, raça, classe e trabalho dentro de um bordel de Manhattan.
A restauração digital em 4K foi realizada pela Criterion Collection e pelo UCLA Film & Television Archive, em parceria com o Sundance Institute. O filme estreou na Quinzena dos Realizadores de Cannes e recebeu posteriormente reconhecimento especial no Festival de Sundance.
Há, portanto, uma inversão importante no olhar. Em vez de perguntar apenas por que aquelas mulheres vendem sexo, Borden pergunta, implicitamente, como elas trabalham, quanto recebem, quem exerce poder sobre elas e como a atividade interfere em suas vidas.
Da tela para a disputa política
É justamente essa mudança de perspectiva que o BSWAC pretende levar para o debate em Massachusetts.
O coletivo defende a descriminalização do trabalho sexual consensual entre adultos e sustenta que profissionais do sexo deveriam ter acesso a mecanismos de proteção, saúde e direitos sem que o exercício da atividade, por si só, as coloque na esfera criminal.
A posição está inserida em uma disputa maior. De um lado, movimentos favoráveis à descriminalização entendem que retirar o trabalho sexual do sistema penal pode reduzir o estigma e ampliar a capacidade das profissionais de buscar proteção e denunciar abusos. De outro, grupos abolicionistas e organizações ligadas ao combate ao tráfico e à exploração sexual argumentam que a prostituição está estruturalmente associada à desigualdade e à exploração e defendem políticas destinadas a reduzir a demanda.
O ponto mais controverso está justamente aí: descriminalizar o trabalho sexual significaria aumentar a segurança de quem o exerce ou normalizar uma atividade que críticos consideram inerentemente exploratória?
O BSWAC responde que criminalizar a atividade — inclusive por meio de políticas que punem clientes — pode empurrar profissionais para ambientes mais clandestinos e dificultar o acesso a mecanismos de proteção. O coletivo também insiste na distinção entre trabalho sexual consensual entre adultos e crimes como tráfico de pessoas, coerção e exploração de menores.
Quarenta anos depois, a pergunta permanece
A força de Working Girls está justamente em não oferecer uma resposta simples. O filme não transforma suas personagens em heroínas nem vítimas. Mostra mulheres trabalhando, negociando, ganhando dinheiro, enfrentando chefes, estabelecendo limites e lidando com o estigma de uma profissão que permanece socialmente marginalizada.
É essa perspectiva que torna a sessão de Somerville mais do que uma simples exibição de um clássico do cinema independente.
Quarenta anos depois, Working Girls volta à tela para colocar uma pergunta antiga diante de uma disputa contemporânea: se a prostituição pode ser observada também como trabalho, quais direitos deveriam acompanhar quem o exerce — e onde termina o trabalho consensual e começa a exploração?
O debate no Somerville Theatre não deverá resolver essa questão. Mas pode fazer algo mais importante: obrigar os dois lados da discussão a responderem a ela.
Serviço
Filme: Working Girls (EUA, 1986), de Lizzie Borden
Duração: 93 minutos
Data: 7 de setembro de 2026
Horário: 19h30
Local: Somerville Theatre, 55 Davis Square, Somerville, Massachusetts
Após a sessão: debate com o Boston Sex Workers and Allies Collective
Formato: DCP
Ingressos: Somerville Theatre


