JSNEWS
O sistema de imigração dos Estados Unidos atravessa uma transformação profunda, e seus efeitos já aparecem de forma contundente nas decisões sobre pedidos de asilo. Em junho de 2026, 94,1% dos casos analisados por juízes de imigração terminaram com a negativa do asilo, enquanto apenas 5,5% dos solicitantes receberam proteção. O restante, 0,4%, obteve alguma outra forma de alívio migratório.
Os dados foram divulgados nesta segunda-feira (31) pelo Transactional Records Access Clearinghouse (TRAC), centro de pesquisa da Universidade de Syracuse que acompanha o funcionamento dos tribunais de imigração americanos. O levantamento mostra que apenas 771 pessoas receberam asilo em junho, menos de um quarto do número registrado três anos antes.
A redução ocorre ao mesmo tempo em que o sistema passou a decidir um volume muito maior de processos. Em março e junho, os tribunais ultrapassaram a marca de 14 mil decisões de asilo em um único mês. Em abril e maio, foram mais de 13 mil.
A mudança coincide com uma renovação sem precedentes da magistratura de imigração durante o governo do presidente Donald Trump. Segundo os registros analisados pela TRAC, 279 juízes foram demitidos ou deixaram seus cargos entre os anos fiscais de 2025 e 2026, número equivalente a cerca de 38% dos 735 magistrados que integravam a estrutura no fim do ano fiscal de 2024, último período completo da administração Joe Biden.
Durante os quatro anos do governo Biden, a média anual de juízes que deixaram a magistratura havia sido de aproximadamente 5%.
Em contrapartida, Trump nomeou 192 novos juízes de imigração, além de 53 magistrados temporários. Ao todo, 743 juízes participaram de decisões de asilo no ano fiscal de 2026. Apenas 322 — 43% — já estavam no cargo antes da posse de Trump.
Mudança alcança até juízes antigos
A alteração, porém, não se limita aos magistrados recém-nomeados. A TRAC identificou 130 juízes que permaneceram na magistratura e continuaram decidindo pedidos de asilo desde o ano fiscal de 2021. Três em cada quatro passaram a negar uma parcela maior dos pedidos em 2026 do que no primeiro ano analisado.
Entre esses magistrados, o aumento médio da taxa de negativas foi de 33 pontos porcentuais, enquanto o aumento mediano chegou a 28 pontos.
Os números não significam, contudo, que as decisões sejam determinadas exclusivamente pela orientação política do governo ou pela atuação individual de cada juiz. A própria TRAC destaca que as taxas de concessão são influenciadas por fatores como o perfil dos processos, a situação dos imigrantes — inclusive se estão detidos —, a representação por advogado, a nacionalidade dos solicitantes e as políticas migratórias em vigor.
Ainda assim, a dimensão da transformação do sistema chama atenção.
A taxa de concessão de asilo já vinha caindo antes da volta de Trump à Casa Branca. Segundo a TRAC, ela recuou de mais de 50% no início do governo Biden para cerca de 32% ao final de sua administração. Sob Trump, entretanto, a trajetória continuou descendente, chegando aos atuais 5,5%.
O resultado é um sistema que decide mais processos e concede proporcionalmente menos proteção.
A expansão do número de decisões também sofreu oscilações. Depois das demissões de juízes promovidas pela administração Trump, os julgamentos caíram para cerca de 8,8 mil em novembro e dezembro de 2025, pouco acima dos níveis observados no fim do governo Biden. Com a chegada dos novos magistrados, porém, a quantidade de processos concluídos voltou a subir e atingiu patamares recordes em 2026.
Para os imigrantes que dependem do sistema de asilo, a mudança representa uma alteração significativa no ambiente em que seus pedidos são examinados. Apenas uma pequena fração dos processos atualmente decididos pelos tribunais termina com a concessão da proteção.
A TRAC disponibilizou ainda relatórios individuais dos juízes, permitindo comparar as taxas de concessão e negativa em cada tribunal e acompanhar a evolução do comportamento dos magistrados ao longo dos anos fiscais de 2021 a 2026.


