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O governo dos Estados Unidos prepara, a partir de 1º de outubro, um aumento da ajuda inicial de reassentamento a refugiados da África do Sul para até 4.500 dólares por pessoa. A cifra quase dobra o patamar atual, na casa dos 2.400 dólares. A informação, ainda sem anúncio oficial do Departamento de Saúde e Serviços Humanos, veio de fontes ouvidas pelo Washington Post. O dinheiro não cai na mão na pista do aeroporto. Vai para agências que pagam teto, comida, transporte. Se sobrar, pode ir em espécie.
Na prática, quem entra hoje por esse canal é, em mais de 99% dos casos, sul-africano branco — em especial afrikâner. Trump fechou o programa de refugiados para quase o resto do mundo e manteve uma exceção. A Casa Branca chama isso de resposta a uma emergência. Pretória chama de distorção.
Convém separar o que é volume e o que é símbolo. Nos últimos cinquenta anos, o fluxo legal americano não é europeu. Green cards, família, emprego, ajuste de status: América Latina e Ásia puxam a fila. Europa mal aparece. Imigrante branco, no estoque recente, é minoria. Quem descreve o gesto de Trump como “importação de brancos” troca a conta grande pela fatia pequena. Dez mil afrikâneres não alteram a demografia dos Estados Unidos. Alteram o recado: uma minoria específica passou a ter porta humanitária enquanto as outras portas humanitárias foram trancadas.
A minoria em questão não precisa de mito para existir no noticiário. Há ataques a fazendas todos os anos. Em 2025, o AfriForum registrou 184 ataques e 29 assassinatos rurais; em 2024, 176 e 37. A polícia sul-africana também conta mortes no campo — de fazendeiro branco e de trabalhador negro. O país inteiro mata mais de vinte mil pessoas por ano. A vítima típica não é o boer. É o homem negro pobre na cidade. Isso é fato. Também é fato que a fazenda isolada, com arma e caixa, é alvo fácil — e que a crueldade de parte desses crimes passa do necessário para roubar.
O inquérito mais citado, de 2003, concluiu que a maioria dos ataques era latrocínio, não operação política. Dois por cento com motivo racial explícito. Quem quiser uma milícia de Estado não vai achar o organograma. Quem quiser um clima vai achar o palanque.
Em março de 2010, ainda na juventude do ANC, Julius Malema cantou Dubul’ ibhunu — “atire no boer”. Virou marca do EFF. Em 21 de março de 2025, Dia dos Direitos Humanos, cantou de novo em Sharpeville. Musk espalhou o vídeo. Em 21 de maio, Trump projetou o material no Salão Oval, com Ramaphosa sentado ao lado. Quatro dias depois, Malema cantou outra vez.
Os tribunais sul-africanos, inclusive o Constitucional em 2025, recusaram banir o cântico. Não é discurso de ódio, disseram que o ouvinte razoável não deve levar ao pé da letra. Para o governo Ramaphosa, é canção de luta. Para quem é o alvo da letra, a minoria branca, a distinção acadêmica é fina, o fato é que o Estado que não proíbe um slogan de execução — e trata a queixa como histeria racial — comunica, no mínimo, indiferença.
Em abril de 2026, Malema saiu do fórum condenado por disparar fuzil num comício de 2018 e cantou Kill the Boer na calçada, com a mulher. Em junho, no Dia da Juventude. No fim de julho de 2026, num velório de militante em Rustenburg, a imprensa local registrou o canto outra vez — agora incorporado à campanha municipal do EFF. Ele chegou a chamar as músicas do partido de gritos de guerra.
Isso não prova que cada latrocínio rural obedece a Malema. Prova que o discurso que marca o fazendeiro branco como obstáculo histórico e uma ameaça a ser eliminada ainda é presente nos dias atuais.
A medida americana, vista assim, não é um capricho étnico no vácuo. É uma aposta estreita e explícita: proteger um grupo pequeno que o governo do país de origem recusa classificar como perseguido, enquanto Washington fecha a mesma porta a dezenas de outras nacionalidades. Pode-se criticar a seletividade. É mais difícil fingir que o slogan que pede genocídio seja apenas vista como uma acomodação de uma “sociedade em transformação”.
O refúgio, no direito americano, nunca foi prêmio por estatística nacional de homicídio. Foi proteção a quem o Estado não quer ou não consegue defender. Trump decidiu que, neste caso, o critério se aplica.


