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O ICE quer gastar entre US$ 1 milhão e US$ 2 milhões para comprar o Spot, o cão-robô quadrúpede da Boston Dynamics. No aviso publicado pelo sistema de compras do Departamento de Segurança Interna (DHS), a justificativa parece técnica: inspeção remota, leitura de ambientes, avaliação de riscos em espaços confinados, instáveis ou contaminados. Um funcionário do DHS disse à NBC que o equipamento não será usado para efetuar prisões. A solicitação de propostas deve ser publicada em 4 de setembro. O local previsto para a operação é Fort Benning, onde agentes federais recebem treinamento. Não há contrato assinado. Trata-se de uma intenção de compra, sem concorrência.
O Spot já foi empregado por forças policiais em Los Angeles e Nova York. O Serviço Secreto também o utilizou em Mar-a-Lago, em 2024. Equipado com câmeras e sensores capazes de detectar vibração, gases e radiação, o robô pode subir escadas e entrar em locais onde a presença de um agente humano ofereceria risco. A Boston Dynamics afirma que não autoriza o uso do equipamento como arma nem como sistema autônomo de mira. Em caso de uso indevido, diz que poderá tomar “medidas adequadas”. É uma salvaguarda jurídica — não uma garantia de como a tecnologia será empregada em campo.
O debate público, porém, não é sobre o torque das patas. É sobre quem segura o controle.
Isso ganha outra dimensão porque o mesmo ICE acaba de fechar um contrato de US$ 16,7 milhões — com teto de US$ 20 milhões — para cerca de 6 mil pares de luvas capazes de aplicar choques elétricos. O negócio, também sem licitação, foi firmado com a Compliant Technologies, do Kentucky. A luva parece um equipamento comum até que o agente acione o dispositivo. Tom Homan a defende como alternativa menos letal que uma arma de fogo. Senadores democratas pedem o cancelamento do contrato e mais treinamento em técnicas de desescalada. A ACLU questiona o uso da tecnologia, apontando riscos de dor e menor responsabilização.
Aqui está a distinção que o alarmismo costuma apagar: o robô é olho; a luva é mão. Um permite observar e avaliar um ambiente antes que o agente entre. O outro atua quando o contato físico já começou.
Isso não significa, porém, que o simples argumento da “segurança do agente” encerre a discussão. Uma nova ferramenta incorporada a operações de imigração também herda a desconfiança acumulada em torno dessas operações. Sem regras públicas de emprego, registro de cada missão e auditoria independente sobre o material captado, o Spot deixa de ser apenas uma máquina e passa a funcionar como metáfora. E, neste ambiente, metáforas avançam mais depressa que robôs.
Dois milhões de dólares não compram um exército de cães de metal. Compram um precedente. Cabe ao DHS publicar a doutrina antes que a tecnologia chegue ao terreno: o que o aparelho pode fazer, o que não pode, quem autoriza seu uso e por quanto tempo as imagens serão armazenadas.
Caso contrário, a máquina chegará primeiro.
E a regra, depois.


